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	<title>Pedaços de Verdades</title>
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	<description>Poucas verdades não significam, necessariamente, muitas mentiras. Só algumas.</description>
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		<title>Outono no peito</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jun 2011 14:31:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem  Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Estamos sentados lado a lado em um canto destacado da praia, quietos, olhando o mar. Isso, por si, não deixa de ser improvável. Não o fato de estarmos olhando o mar, mas de estarmos quietos. Não sou necessariamente conhecido por minha habilidade em conseguir ficar calado. E Beatriz&#8230; bem, Beatriz fala muito mais que eu. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=159&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estamos sentados lado a lado em um canto destacado da praia, quietos, olhando o mar. Isso, por si, não deixa de ser improvável. Não o fato de estarmos olhando o mar, mas de estarmos quietos. Não sou necessariamente conhecido por minha habilidade em conseguir ficar calado. E Beatriz&#8230; bem, Beatriz fala <em>muito</em> mais que eu.</p>
<p>Temos histórias parecidas em nossos últimos relacionamentos. Tudo bem que o dela não teve tantas idas e vindas, que o meu não teve <em>qual-o-modelo-de-sofá-vai-ficar-mais-bonito-na-nossa-sala</em>, o dela não teve tanto álcool e o meu não teve o susto em descobrir um provável enteado, mas são histórias parecidas, no fim das contas. Pelo menos eu acho que são. Talvez sejam. <em>Quer dizer</em>&#8230; nós dois descobrimos quanto custa um par de alianças – embora ela tenha usado a dela e eu ainda guarde o estojo lacrado no fundo de uma gaveta.</p>
<p>Temos nossas diferenças, em todo caso. Formas diferentes de enxergar o mundo. O que é bom. Ela diz que está feliz e que quer aproveitar as coisas das quais andou se privando nos últimos anos. Eu não penso necessariamente em me reinventar. Não deu muito certo nas últimas tentativas.</p>
<p>Sorrio. Digo que essas diferenças nos faz escapar da possibilidade de sermos um casal como Rob pós-Charlie e Sarah pós-Tom. Ela não entende a piada e acaba revelando que não conhece Nick Hornby, embora lembre-se vagamente de ter assistido “aquele filme do Hugh Grant com o garotinho”. Tudo bem também, afinal eu não conheço Escher. Quero dizer, vi uma exposição e até achei legal, mas não faço a menor ideia do que querem dizer quando falam da <em>relação</em> da obra dele com a “psicologia gestáltica” – o que equivale a não conhecer. E isso nos coloca, mais ou menos, no mesmo patamar em relação aos interesses um do outro.</p>
<p>- Ele teria escrito nossas histórias se vivesse uma vida mais tediosa. Ou se fosse viciado em ansiolíticos e passasse o dia inteiro de cuecas, comendo salgadinhos e assistindo Sessão da Tarde e novela das oito. – explico, sobre Hornby.<br />
- Ai, que <em>horror</em>! – ela responde, dando um tapa no meu braço e, aparentemente, realmente horrorizada com a minha capacidade para piadas ruins. Só que não era piada dessa vez.</p>
<p>Sob o sol avermelhado, tocando a pele queimada e olhando para esses olhos que a claridade insiste em fazer fechar, vejo que estou apaixonado. Só não me lembro mais disso a partir do sexto minuto posterior ao vê-la descer as escadas do metrô.</p>
<p>Em alguns dias, esse roteiro vai chegar ao fim. Enxergo. Vejo o potencial envolvimento e sei que não sou capaz – ou, pelo menos, sei que não quero ser. Sei que vou fazê-la sair do seu casulo, da ilusão de quem quer beber o mundo inteiro de uma vez, e fazê-la inventar e nutrir expectativas que, em pouco tempo, não farei a menor questão de satisfazer. Sei que vou fazê-la chorar, que vou partir seu coração mais uma vez e desejar nunca ter me reencontrado e mudado meu papel depois de tantos anos sendo apenas um velho amigo de quem não se tinha notícias.</p>
<p>Sei disso porque é isso que eu faço, sei porque é assim que eu sou. Ou é assim que me lembro de já ter sido um dia, quando não estava preocupado, tentando impressionar alguém.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/159/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/159/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/159/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/159/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/159/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/159/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/159/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/159/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/159/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/159/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/159/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/159/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/159/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/159/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=159&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Espaços</title>
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		<pubDate>Sun, 29 May 2011 17:28:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem  Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Mudo o papel de parede da tela do computador. Sai uma foto dela, entra uma da Penélope Cruz. E viro o porta-retratos. Não quero procurar outra foto agora. Também não quero, ainda, me desfazer dessa. Abro o armário apenas para conferir e noto que ela levou algumas peças de roupa, deixando aquele aspecto triste – [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=152&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Mudo o papel de parede da tela do computador. Sai uma foto dela, entra uma da Penélope Cruz. E viro o porta-retratos. Não quero procurar outra foto agora. Também não quero, ainda, me desfazer dessa.<br />
Abro o armário apenas para conferir e noto que ela levou algumas peças de roupa, deixando aquele aspecto triste – apenas minhas roupas, poucas nos cabides, muitas para dobrar, duas gavetas vazias, espaços sem nada.</p>
<p>Ainda no quarto sinto aquele cheiro doce e enjoativo de perfume. Acendo um cigarro (Júlia nunca gostou que eu fumasse dentro de casa, de modo que eu precisava ir para a sacada sempre que acabávamos nossos&#8230; <em>assuntos particulares</em>). Acendo um incenso. Acabo um cigarro. Acendo outro.</p>
<p>Nunca suportei psicanálise, principalmente o tarado do Freud, fosse em seus textos originais ou em suas traduções mal feitas para a língua de Paulo Coelho. Isso nunca foi segredo para ela. Talvez por isso Júlia tenha tido a sabedoria de levar embora aqueles malditos livros que insistiam em ocupar uma fileira inteira da estante do corredor logo em sua primeira viagem. Não cheguei a exata decisão de que tipo de fim daria para eles, mas sou capaz de pensar em algumas alternativas interessantes – umas mais agressivas, outras mais nojentas. Freud precisaria de terapia se visse o que eu faria com seus livros.</p>
<p>Decido que preciso de uma volta. Andar, encontrar alguém, beber uma cerveja. Ligo para algumas pessoas e visto, sem passar, o jeans que deixei secando atrás da geladeira. Calço o único par de tênis razoavelmente limpo – presente de Júlia no último natal.</p>
<p>Há coisas que são dela em todos os cômodos da casa. Ela está em tudo por aqui. Nos espaços vazios do guarda-roupas, no cheiro de perfume misturado à fumaça de incenso e cigarro. Nas lacunas da estante de livros, nos potes de iogurte esquecidos na geladeira ou nos pares de tênis que calço.</p>
<p>Júlia está em tudo que falta, em tudo que sobra. Júlia está em tudo que serve.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/152/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/152/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/152/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=152&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>sobre lembranças discretas</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Oct 2010 04:19:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem  Categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de vê-la, outra vez, me deixar sozinho em casa &#8211; rejeitando o café e duas fatias de torradas e voltando apenas para buscar o par de brincos sobre o criado mudo alguns segundos após ter batido a porta -, fiquei me perguntando se aquilo havia realmente significado alguma coisa para ela. Colocamos nossas diferenças [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=150&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de vê-la, outra vez, me deixar sozinho em casa &#8211; rejeitando o café e duas fatias de torradas e voltando apenas para buscar o par de brincos sobre o criado mudo alguns segundos após ter batido a porta -, fiquei me perguntando se aquilo havia realmente significado alguma coisa para ela.<br />
Colocamos nossas diferenças sobre a mesa e, entre telefonemas, emails e mensagens internas no twitter, discutimos sobre certo e errado, sobre vontades e receios, sobre expectativas e o presente real. E então, depois de termos decidido que não valia a pena, depois de termos rejeitado as possibilidades e optarmos por mantermos as coisas da forma que já estavam, voltamos atrás sem explicações extras: campainha às 2 da manhã, sorrisos, suor e suspiros.</p>
<p>Sem novas indiretas, vi as estações mudarem até vê-la novamente, mesmo à distância.<br />
De todas as formas que ela poderia ter encontrado para manter por perto alguma lembrança de nós dois, a flagrei com a mais sutil. Ela, normalmente tão desligada do mundo esportivo, usava uma camisa 7 do time do São Paulo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/150/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/150/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/150/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/150/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/150/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/150/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/150/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/150/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/150/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/150/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/150/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/150/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/150/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/150/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=150&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Cria</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Oct 2010 02:32:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos & afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando abrem a porta, o que vejo é um pedaço de carne inchado, vermelho e esfomeado enrolado em uma manta de cor branca. Não dou um passo, não respiro, não sorrio e nem choro. Simplesmente não sei que tipo de ação devo ter. Sinceridade? Eu não esperava por isso, eu não desejava isso, eu não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=148&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando abrem a porta, o que vejo é um pedaço de carne inchado, vermelho e esfomeado enrolado em uma manta de cor branca. Não dou um passo, não respiro, não sorrio e nem choro. Simplesmente não sei que tipo de ação devo ter. Sinceridade? Eu não esperava por isso, eu não desejava isso, eu não sonhava com isso. Ao menos não agora, ao menos não com ela.<br />
Todos ao redor – tirando, talvez, as enfermeiras – tem um sorriso meio besta na cara. Agem como se esperassem que uma iluminação, uma epifania, me levasse a fazer ou dizer algo incrível, sábio, emotivo, no mínimo. E enquanto vejo expressões de ansiedade se transformar em ares de decepção, é como se os segundos se tornassem horas.</p>
<p>Alguém me pega pela mão – e nesse momento minha pressão está baixa, meus pés gelados, meus joelhos trêmulos e minha vista turva demais para que eu consiga saber quem é – e me leva até o lado da cama. Deitada, aquela garota com quem eu tive <em>algo-sem-nome</em> até poucos meses (aquela garota normalmente bonita e que agora parece alguém que, querendo emagrecer depois de adquirir alguns quilos a mais, ficou sem comer por uma semana e participou, assim faminta, de uma corrida de obstáculos) dirige a mim seu olhar triste, mas de alguma forma, esperançoso, emocionado.</p>
<p>Ela se ajeita e estende o pequeno embrulho em minha direção. <em>“Quer pegar?”</em><br />
Na verdade, é bastante claro que eu não quero. A possibilidade de quebrar aquela coisa tão frágil e estranha em uma dezena de pedaços me parece bastante real. Não saberia por onde começar, em todo caso. Não saberia por onde passar os braços, onde apoiar. Não quero, não sei, temo, mas pego.</p>
<p>Uma série de flashes passam diante dos meus olhos. Lembranças minhas, possibilidades para ele. Deslizes e acertos – mais uns do que outros.</p>
<p>Por um instante penso em dizer que vou estar sempre por aqui. Por alguns instantes quero dizer que tudo vai ficar bem, que o mundo sorri para aqueles que se esforçam. Penso em dizer que não importa o quanto as coisas sejam difíceis, tudo, tudo se ajeita. Mas lamento. Penso, mas não esqueço: as coisas não são assim. Eu sei. Ele, um dia, há de aprender.</p>
<p>Não digo nada.<br />
Algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/148/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/148/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/148/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=148&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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	</item>
		<item>
		<title>22 do oito.</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Aug 2010 02:16:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Queria saber o que me dá quando essa dor, esse não-sei-o-quê sem nome que me aperta o peito vem pra me tirar o ar, me deixar na cama, na lona, no chão, sem vontade ou ânimo para tentar levantar. Queria, mas não sei. Tem sido assim há tanto tempo, de tempos em tempos. As estações [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=145&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Queria saber o que me dá quando essa dor, esse <em>não-sei-o-quê</em> sem nome que me aperta o peito vem pra me tirar o ar, me deixar na cama, na lona, no chão, sem vontade ou ânimo para tentar levantar.</p>
<p>Queria, mas não sei.</p>
<p>Tem sido assim há tanto tempo, de tempos em tempos. As estações mudam, os dias passam, e, de quando em quando, cá estou novamente achando extremamente desgastante ter que viver em sociedade, ter que dar bom dia às pessoas, ter que sorrir, dividir espaço em transporte público. São tempos em que, escrevi uma vez quando adolescente, meu desejo é o de entrar em coma, abandonar o mundo num sono profundo, sem desejos, sem fome, sem tomar conhecimento das necessidades mais básicas.</p>
<p>Já busquei culpados. Uma rejeição, uma recuperação, términos precoces, mudanças em rotinas, uma reprovação, anos de desemprego, final complicado de uma relação intensa, frustrações profissionais. Certos, na verdade, estão aqueles que me corrigem, tentam me chamar de volta dizendo que está tudo bem, que tenho uma boa família, um emprego, alguma saúde. Errado sou eu, que, tenho certeza, encontraria sempre novos motivos, ainda que eliminasse tudo aquilo que me perturba agora.</p>
<p>Maus momentos passam. Precisam passar. Mas também voltam. Sempre voltam. E talvez seja por isso, por essa certeza, que me pego tão sem vontade de tentar fazer algo que me ajude a sair da fossa tão ridícula e sem razões reais para qual me arrasto, e que, em certos momentos, me encobre por completo, sem chances de enxergar um palmo além do meu nariz.</p>
<p>Queria saber o que me dá. Queria saber nomear, encontrar fôlego.</p>
<p>Ou sumir.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/145/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/145/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/145/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=145&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Umbigo</title>
		<link>http://poucasverdades.wordpress.com/2010/06/21/umbigo/</link>
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		<pubDate>Mon, 21 Jun 2010 01:17:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos & afins]]></category>

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		<description><![CDATA[De todas as coisas que você deixou para trás ao desistir de tudo e enfatizando que uma das poucas características marcantes da minha personalidade é a minha incapacidade de manter um relacionamento estável e saudável com outra pessoa, poucas ainda estão por aqui. Rasguei suas roupas, vendi seus brincos, queimei seus livros. Alguns dos seus [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=142&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De todas as coisas que você deixou para trás ao desistir de tudo e enfatizando que uma das poucas características marcantes da minha personalidade é a minha incapacidade de manter um relacionamento estável e saudável com outra pessoa, poucas ainda estão por aqui. Rasguei suas roupas, vendi seus brincos, queimei seus livros. Alguns dos seus discos ficaram. Já sobre suas fotos, não posso dizer o mesmo.</p>
<p>Sobre aquela penteadeira branca de metal, aquela com a qual nunca simpatizei, talvez tenha ficado a maior de suas lembranças: um pequeno e frágil vidro de perfume.</p>
<p>Deixei de olhar o calendário quando me convenci de que realmente não haveria mais retorno. Voltei a abrir as janelas quando admiti que os dias eram mesmo cinzas, tanto nas manhãs de chuva quanto nas tardes do mais insuportável calor, e que meu esforço para não encarar algo como isso era exemplo da mais inútil perda de tempo. Perdi as sombras sob os olhos quando, aos poucos, trouxe de volta algum sorriso.</p>
<p>Então houve a primeira noite em que voltei para casa acompanhado, e não havia qualquer mistério em algo assim. <em>Suor, saliva e outras secreções fluem quase sempre da mesma forma em quase todas as pessoas.</em> Ela era alguém a quem eu havia feito acreditar ser especial – ou talvez ela fosse alguém com talento suficiente para me convencer de que havia sido bem sucedido nessa investida. Eu? Eu era alguém contente em ter um corpo orbitando ao redor do meu umbigo.</p>
<p>Voltava do banheiro ao acordar quando notei que ela, em pé diante da penteadeira, havia experimentado seu perfume. Corri em direção à pequena inconveniente e, de olhos fechados, como um cão sem raça em buscar de um bife velho, farejei toda sua carne, do alto da testa à planta do pé, buscando descobrir na combinação corpo/spray o cheiro que eu tão bem conhecia. Inútil. Ao ver meu ar frustrado e cansado, alguma ofensa pairou pelo ar sem que eu tivesse qualquer interesse em decifrá-la.</p>
<p>Cheio de náuseas, voltei ao banheiro, onde vomitei por instantes suficientes para ouvir o som da porta batendo.</p>
<p>Todo tipo de pessoa esteve lá em casa desde então. Das carentes de afeto e atenção às carentes de dinheiro, bebida e comida. Jovens estudantes, amigas de trabalho, companhias bêbadas de final de festa, profissionais, ex-namoradas. Aos poucos, vejo a quantidade de perfume reduzir naquele frasco. Nem todas entendem, e tampouco me dedico a explicar. Já fui xingado, chutado, cuspido, deixado só.</p>
<p>Entre aquele spray e os corpos, tenho conhecido todo tipo de aroma. Alguns doces, outros ácidos. Alguns agradáveis, outros desprezíveis. Nenhum como seu. Ao menos por enquanto.</p>
<p>Talvez você tenha razão. No fim das contas, é realmente provável que eu seja sim incapaz de manter um relacionamento estável e saudável com qualquer outra pessoa.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/142/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/142/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/142/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/142/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/142/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/142/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/142/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/142/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/142/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/142/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/142/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/142/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/142/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/142/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=142&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Jorge Wagner</media:title>
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		<title>Desencontros</title>
		<link>http://poucasverdades.wordpress.com/2010/03/06/desencontros/</link>
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		<pubDate>Sat, 06 Mar 2010 03:59:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos & afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem. Foi num parque, não saberia dizer qual. Todos são iguais, no fim. Uns tem mais gatos abandonados, outros tem mais pombos, outros tem esquilos, outros tem mendigos, e, ainda assim, todos são iguais: apenas um amontoado de plantas e outros seres tentando sobreviver. Estava sentado de frente para um lago, tacando migalhas de um [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=137&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem.</p>
<p>Foi num parque, não saberia dizer qual. Todos são iguais, no fim. Uns tem mais gatos abandonados, outros tem mais pombos, outros tem esquilos, outros tem mendigos, e, ainda assim, todos são iguais: apenas um amontoado de plantas e outros seres tentando sobreviver.</p>
<p>Estava sentado de frente para um lago, tacando migalhas de um salgado murcho para alguns peixes famintos. Via aquela disputa por pedaços de algo que eles provavelmente nunca haviam provado e me lembrava dos dias em que eu agia da mesma forma, com garra para qualquer tipo de batalha, ansioso pelo novo, pela vida, pronto para o que surgisse. No momento, em nada me parecia com aqueles peixes – talvez, exceto, por aquilo que na minha família era carinhosamente chamado de “olhos de peixe morto”. Ao invés disso, talvez me parecesse com aqueles peixes que ficam no fundo das águas, se alimentando de lodo, de restos, do que escapa dos que estão à superfície e, assim, os alcança.</p>
<p>O senso comum costuma atribuir coragem àqueles que tomam atitudes drásticas. “Fulano teve que ser muito corajoso pra fazer aquilo”, etc. Tudo bem, talvez funcione em alguns casos, talvez sirva para algumas pessoas. Dificilmente serve para mim. Mesmo que eu já tenha sido alguém que não aceitava passivamente as coisas, minhas “atitudes drásticas” nunca passaram de grandes atos de covardia – tanto quando, ainda criança, decidi arrebentar a cabeça do valentão da rua com um cabo de enxada (pelas costas, claro), tanto quando, há alguns meses, atravessei por entre uma massa de um cem número de cabeças bêbadas cantantes e encerrei, antes da hora, minha comemoração solitária de réveillon. Foi a mesma covardia que me impeliu ao sangue e à fuga. Não seria a coragem a responsável pelo meu recente pedido de demissão (o que, graças a um dedo em riste destinado ao meu supervisor e a um monitor de plasma quebrado por um grampeador voador havia alguns segundos, acabou se mostrando, no mínimo, desnecessário), antes que eu andasse por quase uma hora sem prestar atenção para onde, terminando a manhã naquele banco, jogando restos de salgado para meia dúzia de peixes.</p>
<p>Sou do tipo que abandona antes de ser abandonado só para poder fingir acreditar que o controle da história sempre esteve em minhas mãos. Atacar pelas costas, fugir de festas ou pedir demissão são diferentes representações da mesma história. E se isso não pode ser chamado de <em>covardia</em>, então não sei dizer o que mais poderia.</p>
<p>***</p>
<p>Pouco depois de meio dia, voltei para o apartamento. Tive que subir pelas escadas, por conta de uma senhora que parecia estar se mudando para o prédio naquele instante e que, claro, se esforçava para subir com todo tipo de bolsas, colchões e eletrodomésticos, de elevador.</p>
<p>Passei alguns minutos sentado no sofá da sala, fitando as paredes, tentando não pensar em nada. E foi aí que decidi juntar algumas peças de roupa e subir a serra. Não para buscar respostas, talvez para pedir desculpas. Soube, desde sempre, que alguém como eu jamais conseguiria passar o resto da vida simplesmente ignorando as consequências de certas decisões. É preciso um certo grau de coragem para isso. Um certo grau&#8230; que me falta.</p>
<p>Havia quase quatro anos que não visitava meus pais. Mandava alguma notícia de vez em quando, quase sempre algo que sabia que eles gostariam de ouvir, fosse verdade ou não, mas&#8230; visitas mesmo, essas eram fora de cogitação. Daí a cara de surpresa da minha mãe quando chegou ao portão depois de ouvir a campainha.</p>
<p>Conversamos um pouco enquanto ela insistia que eu estava mais magro do que o de costume e me obrigava, como se eu tivesse ainda sete anos de idade, a comer um imenso pedaço de bolo de fubá. Mães, sabe como é. E ela não precisou de muito tempo para entender a razão da minha visita&#8230;</p>
<p>Ela diz que nunca entendeu minhas razões, eu digo que estava ficando maluco, ela me manda não brincar com essas coisas e eu peço para deixar esse assunto pra lá. Uma dança de passos ensaiados em que a gente sabe exatamente o que vai ouvir do outro e, mesmo assim, dá o próximo passo. Apenas um rodeio para que ela me pergunte o que realmente desejava saber: “você veio atrás dela, não foi?!”</p>
<p><em>Atrás dela</em>?! Não. Não necessariamente. Em virtude dela? Talvez.</p>
<p>Descubro que ela já não é aquela menina com quem convivi. Depois de algum tempo chorando o meu adeus, ela começou a sair, deixou o cabelo crescer, mudou o guardarroupas, namorou alguns caras (morou com um deles, inclusive). Descubro também que ela já não mora na cidade, o que jogou por água abaixo todo o plano de tentar me desculpar.</p>
<p>A ironia? Bem&#8230; a ironia é que ela se mudou para o exato mesmo local onde passei os dois primeiros dias desse ano.</p>
<p>***</p>
<p>Hoje.</p>
<p>Ligo o carro sem saber exatamente qual o meu próximo destino. Tenho quase trinta, converso com paredes, estou desempregado e minha ideia para refletir sobre a vida envolve parques, lagos, peixes e salgados gordurosos e murchos. Posso voltar ao apartamento e tentar recomeçar. Ou posso juntar minhas tralhas e tentar achar um novo lugar. Posso voltar para a casa dos meus pais e fingir que todo esse tempo não existiu – embora isso exija uma dose grande de cinismo e abstração.</p>
<p>O que vou fazer? Não sei. Eu <em>realmente</em> não sei. Nesse momento, tudo o que eu quero é que alguma resposta caia dos céus e, num<em> insight</em>, eu saiba exatamente o que fazer.</p>
<p>Mas respostas não caem dos céus.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/137/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/137/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/137/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/137/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/137/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/137/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/137/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/137/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/137/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/137/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/137/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/137/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/137/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/137/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=137&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ensaios de Amor (e reflexões sobre términos)</title>
		<link>http://poucasverdades.wordpress.com/2010/02/22/ensaios-de-amor-e-reflexoes-sobre-terminos/</link>
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		<pubDate>Mon, 22 Feb 2010 01:04:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[vida]]></category>

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		<description><![CDATA[Você é uma estudante adolescente que ficou solteira recentemente. Tenta se manter bem saindo com um caso antigo mas, sem motivo aparente, percebe que tudo a sua volta faz lembrar o babaca do seu ex&#8230; e chora. Você é um músico famoso abandonado há pouco tempo por uma das atrizes mais desejadas do país. Como [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=130&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;">Você é uma estudante adolescente que ficou solteira recentemente. Tenta se manter bem saindo com um caso antigo mas, sem motivo aparente, percebe que tudo a sua volta faz lembrar o babaca do seu ex&#8230; e chora. Você é um músico famoso abandonado há pouco tempo por uma das atrizes mais desejadas do país. Como forma de sair da fossa, compõe alguns desabafos e grava o seu melhor disco.</p>
<p style="text-align:center;"><img class="aligncenter" src="http://poucasverdades.files.wordpress.com/2010/02/otto_negrini_300_ag.jpg?w=497" alt="" /></p>
<p style="text-align:left;">Não há como fugir das desilusões amorosas. Convivemos com elas desde os primeiros anos da adolescência e, se tudo acontecer como normalmente acontece, conviveremos com elas até fecharmos os olhos pela última vez.</p>
<p>São elas, as desilusões, a principal fonte de matéria criativa para toda a cultura pop. Na música, muito antes dos garotos maquiados de hoje fazerem suas lamentações infantilóides do tipo “<em>ela me deixou / quero morrer</em>”, o blues cuidava de falar sobre a mulher que ia embora e sobre a dificuldade de se admitir que um amor foi em vão.  A literatura recente é repleta de personagens em maior ou menor grau parecidos com Rob Fleming, do clássico <strong>Alta Fidelidade</strong>, se valendo de momentos dor-de-cotovelo para refletir sobre quem realmente são.  São as idas e vindas do coração que preenchem boa parte dos capítulos das novelas e das séries que vemos na televisão. Em Holywood, dramas e comédias românticas cuidam de oferecer diferentes visões – nem sempre tão diferentes assim – sobre o assunto, engordando a conta bancária de atores como Ashton Kutcher, Drew Barrymore, Ryan Reynolds, Kate Winslet e Cameron Diaz. Aliás, <strong>500 Dias Com Ela</strong>, um dos filmes mais comentados de 2009, tratava exatamente desse tema.<br />
<img class="alignleft" src="http://poucasverdades.files.wordpress.com/2010/02/500-days1-03bee.jpg?w=497" alt="" /></p>
<p>Assim como fez George Lucas em <strong>Guerra nas Estrelas</strong>, demonstrando em filme as teorias sobre a “Jornada do Herói” do mitólogo Joseph Campbell, Mark Webb, diretor de 500, parece ter feito sua lição de casa, estudando, nesse caso, as teorias do filósofo Alain de Botton apresentadas no livro <strong>Ensaios de Amor</strong>.</p>
<p>Nascido em Zurique em 1969 e atualmente radicado em Londres, Alain, uma espécie de Nick Hornby da filosofia (embora rejeite tal comparação), é o que se pode chamar de filósofo pop: querido entre intelectuais e leigos, lido por jovens, convidado para programas de tevês e apontado como um dos principais escritores da Inglaterra. Conta, atualmente, com 10 livros publicados, sete dos quais lançados no Brasil. Entre eles, Ensaios de Amor (<em>Editora Rocco</em>, 1993).<br />
<img class="aligncenter" src="http://www.editoras.com/rocco/022021.jpg" alt="http://www.submarino.com.br/produto/1/25496/ensaios+de+amor" /><br />
Escrito em primeira pessoa, no mais puro tom confessional (daí as comparações com autores como Hornby e Douglas Coupland, por exemplo), Ensaios traz mais do que um narrador contando como se apaixonou subitamente por uma desconhecida que sentou ao seu lado num vôo entre Paris e Londres, como esse encontro descambou para um relacionamento e como esse relacionamento seguiu ladeira abaixo, até o inevitável fim. Botton intercala ao romance inicial uma série de questões emprestadas da matemática, da química, da psicologia e da filosofia e citações de Kant, Marx, Nietzsche, Freud e outros, buscando desmistificar as razões pelas quais nos apaixonamos e o conceito de alma gêmea, oferecendo assim alguma esperança para aqueles que acham que tudo perde o sentido quando um relacionamento acaba.</p>
<p>A lição de Ensaios de Amor é a de que não devemos confundir o destino de<em> amar</em> com o destino de <em>amar uma determinada pessoa</em>. Que não devemos atribuir um caráter fatalista às coisas que devem ser encaradas como mera obra do acaso. Que não devemos “<em>atribuir um significado cósmico a um simples evento terreno</em>”, para citar o narrador de 500 Dias Com Ela. “<em>Coincidência. É o que tudo é. Nada mais que coincidência</em>.”</p>
<p>Alain de Botton, assim como Mark Webber e Tom Hansen, nos ensinam que os términos são tão importantes quanto os inícios. Tudo é cíclico, e todos os sofrimentos nos oferecem oportunidades para repensarmos nossos atos, valores, defeitos e atributos. O mundo não acaba. Sempre há um outono depois que o verão se vai.</p>
<p style="text-align:left;">Enquanto um novo ciclo não se inicia, porém, ao invés de lamentarmos, é sempre bom lembrar da fala do pequeno Gabe Burton, personagem principal de <strong>Abc do Amor</strong>: “<em>O amor é um negócio horroroso, é terrível, praticado por tolos. Vai partir seu coração e deixar você na pior. O que sobra para você, no final? Nada além de algumas incríveis lembranças que não se esquecem</em>”. Pois que não esqueçamos!</p>
<p style="text-align:left;"><img class="alignleft" src="http://lunanova.zip.net/images/abcdoamor_f_004.jpg" alt="" /></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/130/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/130/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/130/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/130/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/130/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/130/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/130/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/130/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/130/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/130/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/130/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/130/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/130/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/130/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=130&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>2 de janeiro</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Jan 2010 00:59:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos & afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Não há dia que signifique tão pouco quanto o primeiro dia do ano. Todos estão cansados, muitos estão de ressaca e a maioria traz no rosto um sorriso bobo de quem não percebe que em menos de uma semana, tudo voltará a ser exatamente como era nos últimos dias de dezembro. Por isso, não fiz [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=128&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não há dia que signifique tão pouco quanto o primeiro dia do ano. Todos estão cansados, muitos estão de ressaca e a maioria traz no rosto um sorriso bobo de quem não percebe que em menos de uma semana, tudo voltará a ser exatamente como era nos últimos dias de dezembro.</p>
<p>Por isso, não fiz por onde me levantar naquele dia.</p>
<p>Abri as cortinas nas primeiras horas do segundo dia quando, acreditava, poderia andar pela areia sem tropeçar em lírios, garrafas de sidra e outras sujeiras do tipo. Com o rosto ainda amarrotado, sai de estômago vazio, sem fazer menção de dar bom dia às cozinheiras, que começavam a preparar o desjejum. </p>
<p>Além de mim, poucos pareciam ter tido a mesma ideia. Durante o trecho que caminhei, dividi espaço apenas com alguns casais de idosos (talvez aquele que haviam me presenteado com um banho de espumantes duas noites antes estivesse por ali também), alguns esportistas, alguns bêbados que pareciam ter caído por ali durante a madrugada, alguns cachorros. E, para minha decepção, com lírios e garrafas.<br />
***</p>
<p>O que <i>ela</i> nunca soube foi que tudo começou naquela época. De um constante estalar de dedos e pescoço, e em seguida a insônia. Das noites sem descanso ao pedido de demissão.<br />
Ela se ocupava em um novo trabalho enquanto eu, de uma hora para outra, via coisas que não deveriam estar onde poderia jurar que estavam, ouvia coisas que ninguém mais ouvia, desconfiava do que não existia. Ora a seguia de longe e em silêncio em busca de provas de algo que não sabia o que era. Ora me trancava no quarto, desligava os aparelhos telefônicos, engolia alguns comprimidos e dormia por dois ou três dias&#8230; e depois voltava, amável e sorridente, culpando um emprego que já não existia pela razão dos meus dias ausentes.</p>
<p>Sem conseguir travar uma conversa que durasse mais que cinco minutos sem desviar do assunto por pelo menos três vezes, senti que não poderia manter as aparências por muito tempo. Em breve alguém iria comentar, tentaria me analisar, me taxaria de doido. Alguém a recomendaria para que tivesse medo.</p>
<p>Inventei qualquer desculpa e sumi antes que isso acontecesse. Engoli as lágrimas, juntei algum dinheiro, mudei de cidade.<br />
Por meses a fio, me entupi de qualquer coisa que me tirasse do ar, e assim sobrevivi por algum tempo: apagando, correndo, cambaleando, rindo, fungando, tossindo, conversando com móveis, animais, pares de calçados, fotos, quadros, páginas de revistas, paredes.</p>
<p>Quase um ano assim até encontrar tratamento e mais alguns meses até os medicamentos começarem a agir. A maior parte das coisas foi se ajeitando a partir do momento em que voltei a dormir como um ser humano.</p>
<p>Um novo emprego, alguns novos amigos e, uma vez sóbrio, aquela eterna impressão de que eu seria sempre apontado por aqueles que sabiam da minha história como “o cara que teve problemas”. Era isso que buscava evitar quando passei a aumentar, por minha conta, os intervalos entre um comprimido e outro. Ou quando voltei a beber – socialmente, apenas – ainda que não me fosse de fato permitido. Era disso que buscava fugir quando juntei minhas coisas no recesso de final de ano e sumi por alguns dias sem avisar para ninguém para onde estava indo.</p>
<p>Então <i>ela</i> surgiu naquela praia, cortando a multidão, vindo em minha direção, ainda que não me visse. Ela, num local tão improvável quanto aquele, em um corpo tão mais sexy do que o corpo que eu tantas vezes visitei. Ela, um dia tão minha e naquela noite tão dela, que eu não saberia dizer até que ponto minha mente me enganava outra vez.<br />
***</p>
<p>Deixei as malas prontas para seguir viagem após um cochilo na parte da tarde. Aquela fuga não foi tão apaziguadora quanto desejava, mas ao menos vermelho, queimado e com as costas ardendo pelo sol eu pareceria um pouco mais comum quando chegasse em casa.</p>
<p>Era tempo de voltar. A velha vida ainda era mesma, os velhos hábitos aguardavam, os sorrisos falsos me esperavam ansiosos. Era hora de voltar à realidade, embora eu não soubesse mais ao certo o que isso significava.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/128/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/128/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/128/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=128&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Feliz Ano Novo</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Jan 2010 04:24:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jorge Wagner</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos & afins]]></category>

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		<description><![CDATA[Não era a minha menina que vinha em minha direção naquela noite, sem, contudo parecer me ver. Num decotado vestido verde de alças, tinha os pés descalços e trazia nas mãos pequenas as um par de sandálias prateadas, andando como se desfilasse enquanto desviava das massas de gente, das garrafas vazias e das oferendas à [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=124&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não era a minha menina que vinha em minha direção naquela noite, sem, contudo parecer me ver. Num decotado vestido verde de alças, tinha os pés descalços e trazia nas mãos pequenas as um par de sandálias prateadas, andando como se desfilasse enquanto desviava das massas de gente, das garrafas vazias e das oferendas à Iemanjá.</p>
<p>Não era. Apesar de parecer, tinha cabelos maiores e mais claros do que aquele tom vermelho, quase roxo, de ondas mais definidas do que aquelas, tantas vezes escondidas em um rabo-de-cavalo.</p>
<p>Ainda sob o êxtase dos fogos que estouravam até poucos minutos, eu me flagrava buscando semelhanças e diferenças entre aquela quase estranha e alguém que, um dia, havia feito parte da minha vida. A grossura das coxas, a maquiagem nos olhos, os grandes brincos dourados de argola – e não aqueles de pena, artesanais. Algumas coisas batiam, outras não. Algumas lembravam. Mas as diferenças&#8230; essas, eram substanciais.</p>
<p>Me distraí enquanto reclamava, em resmungos, do perfume involuntário conseguido às custas de um banho de espumante barato dado como cortesia por um casal de idosos postados ao meu lado. Quando voltei os olhos, ela havia sumido por entre aquela profusão de cabeças.</p>
<p>Procurei meu telefone na esperança de ligar e perguntar àquela menina de outros tempos como iam as coisas, por onde andava, como iam os seus familiares. Bobagem! Seria inútil tentar conversar em meio aquelas vozes confusas, alegres, esperançosas e bêbadas. Seria inútil tentar ligar quando todas as companhias telefônicas do mundo decidem não dar conta do serviço. Seria inútil tentar ligar para alguém cujo nome não constava na agenda telefônica há no mínimo três anos.</p>
<p>Lá estava eu, longe de casa, longe dos poucos amigos, fugindo, ao menos por alguns dias, das obrigações de trabalho, família e qualquer convívio em sociedade. Lá estava eu, tentando ser alguém sem nome e sem história, me escondendo a 300 quilômetros de casa, e agora pensando ver fantasmas.</p>
<p>Passando a analisar alguns dos muitos rostos na esperança e no temor de ver outros traços conhecidos, sequer notei que a cerveja em minhas mãos esquentava, tornando-se intragável.</p>
<p>Tenso como tentava fingir não ser, pensei em acender um cigarro, mesmo depois de tanto tempo sem fumar. Pedir um trago estava fora de cogitação. Comprar um maço seria me render. Apenas cuspi, levei as mãos trêmulas ao bolso e suspirei resignado.</p>
<p>A primeira madrugada seguia. Certo de que aquela estranha não havia passado de uma alucinação – uma entre muitas, tão forte quanto aquelas que eu buscava ignorar, apesar de inédita em seu conteúdo – decidi por voltar à pousada e dormir até o início da tarde.</p>
<p>Acabei de abrir a porta do carro quando tive a impressão de estar sendo observado.<br />
Mal tive tempo de me virar. Lá estava ela, há três passos de mim, sorrindo sem graça e falando alguma coisa sobre coincidência, <em>como-tem-passado</em> e um algo mais que não pôde ser ouvido depois que a porta se fechou e a ignição foi dada.</p>
<p>Aquela não era minha menina, ainda que me reconhecesse. Não era, ainda que pudesse ter o mesmo nome, a mesma data de nascimento, o mesmo dna. Não era, embora houvesse sido um dia, há não tanto tempo atrás.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/poucasverdades.wordpress.com/124/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/poucasverdades.wordpress.com/124/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/poucasverdades.wordpress.com/124/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/poucasverdades.wordpress.com/124/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/poucasverdades.wordpress.com/124/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/poucasverdades.wordpress.com/124/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/poucasverdades.wordpress.com/124/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/poucasverdades.wordpress.com/124/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/poucasverdades.wordpress.com/124/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/poucasverdades.wordpress.com/124/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/poucasverdades.wordpress.com/124/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/poucasverdades.wordpress.com/124/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/poucasverdades.wordpress.com/124/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/poucasverdades.wordpress.com/124/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=poucasverdades.wordpress.com&amp;blog=4060934&amp;post=124&amp;subd=poucasverdades&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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