Outono no peito
Estamos sentados lado a lado em um canto destacado da praia, quietos, olhando o mar. Isso, por si, não deixa de ser improvável. Não o fato de estarmos olhando o mar, mas de estarmos quietos. Não sou necessariamente conhecido por minha habilidade em conseguir ficar calado. E Beatriz… bem, Beatriz fala muito mais que eu.
Temos histórias parecidas em nossos últimos relacionamentos. Tudo bem que o dela não teve tantas idas e vindas, que o meu não teve qual-o-modelo-de-sofá-vai-ficar-mais-bonito-na-nossa-sala, o dela não teve tanto álcool e o meu não teve o susto em descobrir um provável enteado, mas são histórias parecidas, no fim das contas. Pelo menos eu acho que são. Talvez sejam. Quer dizer… nós dois descobrimos quanto custa um par de alianças – embora ela tenha usado a dela e eu ainda guarde o estojo lacrado no fundo de uma gaveta.
Temos nossas diferenças, em todo caso. Formas diferentes de enxergar o mundo. O que é bom. Ela diz que está feliz e que quer aproveitar as coisas das quais andou se privando nos últimos anos. Eu não penso necessariamente em me reinventar. Não deu muito certo nas últimas tentativas.
Sorrio. Digo que essas diferenças nos faz escapar da possibilidade de sermos um casal como Rob pós-Charlie e Sarah pós-Tom. Ela não entende a piada e acaba revelando que não conhece Nick Hornby, embora lembre-se vagamente de ter assistido “aquele filme do Hugh Grant com o garotinho”. Tudo bem também, afinal eu não conheço Escher. Quero dizer, vi uma exposição e até achei legal, mas não faço a menor ideia do que querem dizer quando falam da relação da obra dele com a “psicologia gestáltica” – o que equivale a não conhecer. E isso nos coloca, mais ou menos, no mesmo patamar em relação aos interesses um do outro.
- Ele teria escrito nossas histórias se vivesse uma vida mais tediosa. Ou se fosse viciado em ansiolíticos e passasse o dia inteiro de cuecas, comendo salgadinhos e assistindo Sessão da Tarde e novela das oito. – explico, sobre Hornby.
- Ai, que horror! – ela responde, dando um tapa no meu braço e, aparentemente, realmente horrorizada com a minha capacidade para piadas ruins. Só que não era piada dessa vez.
Sob o sol avermelhado, tocando a pele queimada e olhando para esses olhos que a claridade insiste em fazer fechar, vejo que estou apaixonado. Só não me lembro mais disso a partir do sexto minuto posterior ao vê-la descer as escadas do metrô.
Em alguns dias, esse roteiro vai chegar ao fim. Enxergo. Vejo o potencial envolvimento e sei que não sou capaz – ou, pelo menos, sei que não quero ser. Sei que vou fazê-la sair do seu casulo, da ilusão de quem quer beber o mundo inteiro de uma vez, e fazê-la inventar e nutrir expectativas que, em pouco tempo, não farei a menor questão de satisfazer. Sei que vou fazê-la chorar, que vou partir seu coração mais uma vez e desejar nunca ter me reencontrado e mudado meu papel depois de tantos anos sendo apenas um velho amigo de quem não se tinha notícias.
Sei disso porque é isso que eu faço, sei porque é assim que eu sou. Ou é assim que me lembro de já ter sido um dia, quando não estava preocupado, tentando impressionar alguém.
