Espaços

Mudo o papel de parede da tela do computador. Sai uma foto dela, entra uma da Penélope Cruz. E viro o porta-retratos. Não quero procurar outra foto agora. Também não quero, ainda, me desfazer dessa.
Abro o armário apenas para conferir e noto que ela levou algumas peças de roupa, deixando aquele aspecto triste – apenas minhas roupas, poucas nos cabides, muitas para dobrar, duas gavetas vazias, espaços sem nada.

Ainda no quarto sinto aquele cheiro doce e enjoativo de perfume. Acendo um cigarro (Júlia nunca gostou que eu fumasse dentro de casa, de modo que eu precisava ir para a sacada sempre que acabávamos nossos… assuntos particulares). Acendo um incenso. Acabo um cigarro. Acendo outro.

Nunca suportei psicanálise, principalmente o tarado do Freud, fosse em seus textos originais ou em suas traduções mal feitas para a língua de Paulo Coelho. Isso nunca foi segredo para ela. Talvez por isso Júlia tenha tido a sabedoria de levar embora aqueles malditos livros que insistiam em ocupar uma fileira inteira da estante do corredor logo em sua primeira viagem. Não cheguei a exata decisão de que tipo de fim daria para eles, mas sou capaz de pensar em algumas alternativas interessantes – umas mais agressivas, outras mais nojentas. Freud precisaria de terapia se visse o que eu faria com seus livros.

Decido que preciso de uma volta. Andar, encontrar alguém, beber uma cerveja. Ligo para algumas pessoas e visto, sem passar, o jeans que deixei secando atrás da geladeira. Calço o único par de tênis razoavelmente limpo – presente de Júlia no último natal.

Há coisas que são dela em todos os cômodos da casa. Ela está em tudo por aqui. Nos espaços vazios do guarda-roupas, no cheiro de perfume misturado à fumaça de incenso e cigarro. Nas lacunas da estante de livros, nos potes de iogurte esquecidos na geladeira ou nos pares de tênis que calço.

Júlia está em tudo que falta, em tudo que sobra. Júlia está em tudo que serve.

~ por Jorge Wagner em maio 29, 2011.

5 Respostas to “Espaços”

  1. Caramba, trata da ficção de forma tão real, JW!
    O que impressiona é que esse tipo de texto me faz sentir o cheiro do incenso, do cigarro…Ver o espaço cheio, vazio e tal.
    Mas o que mais toca é que talvez “tudo que falta, em tudo que sobra”, pode ser algo interior, existencial.
    Excelente texto, rapaz!
    ;D

  2. Lindo texto. Visualizei cada cena escrita.

  3. concordo com a Paula, excelente texto.

    a primeira frase é uma atitude clássica quando um relacionamento acaba. e a última também,, com a saudade que parece que nunca vai ter fim e com a ilusão que nada que seja diferente “dela” servirá.

    mas ainda bem que tudo isso passa.

  4. Texto intenso. Porque o amor, a saudade, a ruptura também o são. Parabéns.

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