Cria
Quando abrem a porta, o que vejo é um pedaço de carne inchado, vermelho e esfomeado enrolado em uma manta de cor branca. Não dou um passo, não respiro, não sorrio e nem choro. Simplesmente não sei que tipo de ação devo ter. Sinceridade? Eu não esperava por isso, eu não desejava isso, eu não sonhava com isso. Ao menos não agora, ao menos não com ela.
Todos ao redor – tirando, talvez, as enfermeiras – tem um sorriso meio besta na cara. Agem como se esperassem que uma iluminação, uma epifania, me levasse a fazer ou dizer algo incrível, sábio, emotivo, no mínimo. E enquanto vejo expressões de ansiedade se transformar em ares de decepção, é como se os segundos se tornassem horas.
Alguém me pega pela mão – e nesse momento minha pressão está baixa, meus pés gelados, meus joelhos trêmulos e minha vista turva demais para que eu consiga saber quem é – e me leva até o lado da cama. Deitada, aquela garota com quem eu tive algo-sem-nome até poucos meses (aquela garota normalmente bonita e que agora parece alguém que, querendo emagrecer depois de adquirir alguns quilos a mais, ficou sem comer por uma semana e participou, assim faminta, de uma corrida de obstáculos) dirige a mim seu olhar triste, mas de alguma forma, esperançoso, emocionado.
Ela se ajeita e estende o pequeno embrulho em minha direção. “Quer pegar?”
Na verdade, é bastante claro que eu não quero. A possibilidade de quebrar aquela coisa tão frágil e estranha em uma dezena de pedaços me parece bastante real. Não saberia por onde começar, em todo caso. Não saberia por onde passar os braços, onde apoiar. Não quero, não sei, temo, mas pego.
Uma série de flashes passam diante dos meus olhos. Lembranças minhas, possibilidades para ele. Deslizes e acertos – mais uns do que outros.
Por um instante penso em dizer que vou estar sempre por aqui. Por alguns instantes quero dizer que tudo vai ficar bem, que o mundo sorri para aqueles que se esforçam. Penso em dizer que não importa o quanto as coisas sejam difíceis, tudo, tudo se ajeita. Mas lamento. Penso, mas não esqueço: as coisas não são assim. Eu sei. Ele, um dia, há de aprender.
Não digo nada.
Algumas lágrimas escorrem pelo meu rosto.

JW,
Espero que mais textos, como este, tenham vida através de suas palavras e seus sentimentos (porque o que não falta aqui é paixão!). Espante seus demônios, dê seu coração nessas letrinhas que, juntas, têm a fôrma mais bela de criação da vida. Porque naquilo que você coloca paixão, você coloca vida. E continue com o bom trabalho, espero o próximo post.
Abs,
Paula Bruce