22 do oito.

Queria saber o que me dá quando essa dor, esse não-sei-o-quê sem nome que me aperta o peito vem pra me tirar o ar, me deixar na cama, na lona, no chão, sem vontade ou ânimo para tentar levantar.

Queria, mas não sei.

Tem sido assim há tanto tempo, de tempos em tempos. As estações mudam, os dias passam, e, de quando em quando, cá estou novamente achando extremamente desgastante ter que viver em sociedade, ter que dar bom dia às pessoas, ter que sorrir, dividir espaço em transporte público. São tempos em que, escrevi uma vez quando adolescente, meu desejo é o de entrar em coma, abandonar o mundo num sono profundo, sem desejos, sem fome, sem tomar conhecimento das necessidades mais básicas.

Já busquei culpados. Uma rejeição, uma recuperação, términos precoces, mudanças em rotinas, uma reprovação, anos de desemprego, final complicado de uma relação intensa, frustrações profissionais. Certos, na verdade, estão aqueles que me corrigem, tentam me chamar de volta dizendo que está tudo bem, que tenho uma boa família, um emprego, alguma saúde. Errado sou eu, que, tenho certeza, encontraria sempre novos motivos, ainda que eliminasse tudo aquilo que me perturba agora.

Maus momentos passam. Precisam passar. Mas também voltam. Sempre voltam. E talvez seja por isso, por essa certeza, que me pego tão sem vontade de tentar fazer algo que me ajude a sair da fossa tão ridícula e sem razões reais para qual me arrasto, e que, em certos momentos, me encobre por completo, sem chances de enxergar um palmo além do meu nariz.

Queria saber o que me dá. Queria saber nomear, encontrar fôlego.

Ou sumir.

~ por Jorge Wagner em agosto 23, 2010.

2 Respostas to “22 do oito.”

  1. estar deprimido não é ser deprimente, relação entre causa e efeito; quero sentir apenas o que me rodeia e não deixar fazer parte de mim.

  2. taí, de tudo que eu li nas últimas semanas, que por sinal foram as mais tristes que eu poderia ter, esse texto é o retrato mais perfeito de como eu me sinto.

    desejar força acho que não adianta muito, resta algum pingo de esperança pra que tudo faça algum sentido lá na frente, pq essa sensação estranhamente estúpida não pode (pelo menos não deve) durar pra sempre.

    enfim, belo texto, rapaz!

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