Umbigo
De todas as coisas que você deixou para trás ao desistir de tudo e enfatizando que uma das poucas características marcantes da minha personalidade é a minha incapacidade de manter um relacionamento estável e saudável com outra pessoa, poucas ainda estão por aqui. Rasguei suas roupas, vendi seus brincos, queimei seus livros. Alguns dos seus discos ficaram. Já sobre suas fotos, não posso dizer o mesmo.
Sobre aquela penteadeira branca de metal, aquela com a qual nunca simpatizei, talvez tenha ficado a maior de suas lembranças: um pequeno e frágil vidro de perfume.
Deixei de olhar o calendário quando me convenci de que realmente não haveria mais retorno. Voltei a abrir as janelas quando admiti que os dias eram mesmo cinzas, tanto nas manhãs de chuva quanto nas tardes do mais insuportável calor, e que meu esforço para não encarar algo como isso era exemplo da mais inútil perda de tempo. Perdi as sombras sob os olhos quando, aos poucos, trouxe de volta algum sorriso.
Então houve a primeira noite em que voltei para casa acompanhado, e não havia qualquer mistério em algo assim. Suor, saliva e outras secreções fluem quase sempre da mesma forma em quase todas as pessoas. Ela era alguém a quem eu havia feito acreditar ser especial – ou talvez ela fosse alguém com talento suficiente para me convencer de que havia sido bem sucedido nessa investida. Eu? Eu era alguém contente em ter um corpo orbitando ao redor do meu umbigo.
Voltava do banheiro ao acordar quando notei que ela, em pé diante da penteadeira, havia experimentado seu perfume. Corri em direção à pequena inconveniente e, de olhos fechados, como um cão sem raça em buscar de um bife velho, farejei toda sua carne, do alto da testa à planta do pé, buscando descobrir na combinação corpo/spray o cheiro que eu tão bem conhecia. Inútil. Ao ver meu ar frustrado e cansado, alguma ofensa pairou pelo ar sem que eu tivesse qualquer interesse em decifrá-la.
Cheio de náuseas, voltei ao banheiro, onde vomitei por instantes suficientes para ouvir o som da porta batendo.
Todo tipo de pessoa esteve lá em casa desde então. Das carentes de afeto e atenção às carentes de dinheiro, bebida e comida. Jovens estudantes, amigas de trabalho, companhias bêbadas de final de festa, profissionais, ex-namoradas. Aos poucos, vejo a quantidade de perfume reduzir naquele frasco. Nem todas entendem, e tampouco me dedico a explicar. Já fui xingado, chutado, cuspido, deixado só.
Entre aquele spray e os corpos, tenho conhecido todo tipo de aroma. Alguns doces, outros ácidos. Alguns agradáveis, outros desprezíveis. Nenhum como seu. Ao menos por enquanto.
Talvez você tenha razão. No fim das contas, é realmente provável que eu seja sim incapaz de manter um relacionamento estável e saudável com qualquer outra pessoa.
