Desencontros
Ontem.
Foi num parque, não saberia dizer qual. Todos são iguais, no fim. Uns tem mais gatos abandonados, outros tem mais pombos, outros tem esquilos, outros tem mendigos, e, ainda assim, todos são iguais: apenas um amontoado de plantas e outros seres tentando sobreviver.
Estava sentado de frente para um lago, tacando migalhas de um salgado murcho para alguns peixes famintos. Via aquela disputa por pedaços de algo que eles provavelmente nunca haviam provado e me lembrava dos dias em que eu agia da mesma forma, com garra para qualquer tipo de batalha, ansioso pelo novo, pela vida, pronto para o que surgisse. No momento, em nada me parecia com aqueles peixes – talvez, exceto, por aquilo que na minha família era carinhosamente chamado de “olhos de peixe morto”. Ao invés disso, talvez me parecesse com aqueles peixes que ficam no fundo das águas, se alimentando de lodo, de restos, do que escapa dos que estão à superfície e, assim, os alcança.
O senso comum costuma atribuir coragem àqueles que tomam atitudes drásticas. “Fulano teve que ser muito corajoso pra fazer aquilo”, etc. Tudo bem, talvez funcione em alguns casos, talvez sirva para algumas pessoas. Dificilmente serve para mim. Mesmo que eu já tenha sido alguém que não aceitava passivamente as coisas, minhas “atitudes drásticas” nunca passaram de grandes atos de covardia – tanto quando, ainda criança, decidi arrebentar a cabeça do valentão da rua com um cabo de enxada (pelas costas, claro), tanto quando, há alguns meses, atravessei por entre uma massa de um cem número de cabeças bêbadas cantantes e encerrei, antes da hora, minha comemoração solitária de réveillon. Foi a mesma covardia que me impeliu ao sangue e à fuga. Não seria a coragem a responsável pelo meu recente pedido de demissão (o que, graças a um dedo em riste destinado ao meu supervisor e a um monitor de plasma quebrado por um grampeador voador havia alguns segundos, acabou se mostrando, no mínimo, desnecessário), antes que eu andasse por quase uma hora sem prestar atenção para onde, terminando a manhã naquele banco, jogando restos de salgado para meia dúzia de peixes.
Sou do tipo que abandona antes de ser abandonado só para poder fingir acreditar que o controle da história sempre esteve em minhas mãos. Atacar pelas costas, fugir de festas ou pedir demissão são diferentes representações da mesma história. E se isso não pode ser chamado de covardia, então não sei dizer o que mais poderia.
***
Pouco depois de meio dia, voltei para o apartamento. Tive que subir pelas escadas, por conta de uma senhora que parecia estar se mudando para o prédio naquele instante e que, claro, se esforçava para subir com todo tipo de bolsas, colchões e eletrodomésticos, de elevador.
Passei alguns minutos sentado no sofá da sala, fitando as paredes, tentando não pensar em nada. E foi aí que decidi juntar algumas peças de roupa e subir a serra. Não para buscar respostas, talvez para pedir desculpas. Soube, desde sempre, que alguém como eu jamais conseguiria passar o resto da vida simplesmente ignorando as consequências de certas decisões. É preciso um certo grau de coragem para isso. Um certo grau… que me falta.
Havia quase quatro anos que não visitava meus pais. Mandava alguma notícia de vez em quando, quase sempre algo que sabia que eles gostariam de ouvir, fosse verdade ou não, mas… visitas mesmo, essas eram fora de cogitação. Daí a cara de surpresa da minha mãe quando chegou ao portão depois de ouvir a campainha.
Conversamos um pouco enquanto ela insistia que eu estava mais magro do que o de costume e me obrigava, como se eu tivesse ainda sete anos de idade, a comer um imenso pedaço de bolo de fubá. Mães, sabe como é. E ela não precisou de muito tempo para entender a razão da minha visita…
Ela diz que nunca entendeu minhas razões, eu digo que estava ficando maluco, ela me manda não brincar com essas coisas e eu peço para deixar esse assunto pra lá. Uma dança de passos ensaiados em que a gente sabe exatamente o que vai ouvir do outro e, mesmo assim, dá o próximo passo. Apenas um rodeio para que ela me pergunte o que realmente desejava saber: “você veio atrás dela, não foi?!”
Atrás dela?! Não. Não necessariamente. Em virtude dela? Talvez.
Descubro que ela já não é aquela menina com quem convivi. Depois de algum tempo chorando o meu adeus, ela começou a sair, deixou o cabelo crescer, mudou o guardarroupas, namorou alguns caras (morou com um deles, inclusive). Descubro também que ela já não mora na cidade, o que jogou por água abaixo todo o plano de tentar me desculpar.
A ironia? Bem… a ironia é que ela se mudou para o exato mesmo local onde passei os dois primeiros dias desse ano.
***
Hoje.
Ligo o carro sem saber exatamente qual o meu próximo destino. Tenho quase trinta, converso com paredes, estou desempregado e minha ideia para refletir sobre a vida envolve parques, lagos, peixes e salgados gordurosos e murchos. Posso voltar ao apartamento e tentar recomeçar. Ou posso juntar minhas tralhas e tentar achar um novo lugar. Posso voltar para a casa dos meus pais e fingir que todo esse tempo não existiu – embora isso exija uma dose grande de cinismo e abstração.
O que vou fazer? Não sei. Eu realmente não sei. Nesse momento, tudo o que eu quero é que alguma resposta caia dos céus e, num insight, eu saiba exatamente o que fazer.
Mas respostas não caem dos céus.

Gostei do texto o.o
criei um blog ontem, e tô adicionando alguns que achei legal.
adicionei o seu =)
beijos
olá! obrigado! =]
tem outros dois textos que antecedem esse… não lembro dos nomes agora (preguiça de caçar. rs), mas talvez vc goste de ler.
obrigado por me adicionar no seu.