2 de janeiro
Não há dia que signifique tão pouco quanto o primeiro dia do ano. Todos estão cansados, muitos estão de ressaca e a maioria traz no rosto um sorriso bobo de quem não percebe que em menos de uma semana, tudo voltará a ser exatamente como era nos últimos dias de dezembro.
Por isso, não fiz por onde me levantar naquele dia.
Abri as cortinas nas primeiras horas do segundo dia quando, acreditava, poderia andar pela areia sem tropeçar em lírios, garrafas de sidra e outras sujeiras do tipo. Com o rosto ainda amarrotado, sai de estômago vazio, sem fazer menção de dar bom dia às cozinheiras, que começavam a preparar o desjejum.
Além de mim, poucos pareciam ter tido a mesma ideia. Durante o trecho que caminhei, dividi espaço apenas com alguns casais de idosos (talvez aquele que haviam me presenteado com um banho de espumantes duas noites antes estivesse por ali também), alguns esportistas, alguns bêbados que pareciam ter caído por ali durante a madrugada, alguns cachorros. E, para minha decepção, com lírios e garrafas.
***
O que ela nunca soube foi que tudo começou naquela época. De um constante estalar de dedos e pescoço, e em seguida a insônia. Das noites sem descanso ao pedido de demissão.
Ela se ocupava em um novo trabalho enquanto eu, de uma hora para outra, via coisas que não deveriam estar onde poderia jurar que estavam, ouvia coisas que ninguém mais ouvia, desconfiava do que não existia. Ora a seguia de longe e em silêncio em busca de provas de algo que não sabia o que era. Ora me trancava no quarto, desligava os aparelhos telefônicos, engolia alguns comprimidos e dormia por dois ou três dias… e depois voltava, amável e sorridente, culpando um emprego que já não existia pela razão dos meus dias ausentes.
Sem conseguir travar uma conversa que durasse mais que cinco minutos sem desviar do assunto por pelo menos três vezes, senti que não poderia manter as aparências por muito tempo. Em breve alguém iria comentar, tentaria me analisar, me taxaria de doido. Alguém a recomendaria para que tivesse medo.
Inventei qualquer desculpa e sumi antes que isso acontecesse. Engoli as lágrimas, juntei algum dinheiro, mudei de cidade.
Por meses a fio, me entupi de qualquer coisa que me tirasse do ar, e assim sobrevivi por algum tempo: apagando, correndo, cambaleando, rindo, fungando, tossindo, conversando com móveis, animais, pares de calçados, fotos, quadros, páginas de revistas, paredes.
Quase um ano assim até encontrar tratamento e mais alguns meses até os medicamentos começarem a agir. A maior parte das coisas foi se ajeitando a partir do momento em que voltei a dormir como um ser humano.
Um novo emprego, alguns novos amigos e, uma vez sóbrio, aquela eterna impressão de que eu seria sempre apontado por aqueles que sabiam da minha história como “o cara que teve problemas”. Era isso que buscava evitar quando passei a aumentar, por minha conta, os intervalos entre um comprimido e outro. Ou quando voltei a beber – socialmente, apenas – ainda que não me fosse de fato permitido. Era disso que buscava fugir quando juntei minhas coisas no recesso de final de ano e sumi por alguns dias sem avisar para ninguém para onde estava indo.
Então ela surgiu naquela praia, cortando a multidão, vindo em minha direção, ainda que não me visse. Ela, num local tão improvável quanto aquele, em um corpo tão mais sexy do que o corpo que eu tantas vezes visitei. Ela, um dia tão minha e naquela noite tão dela, que eu não saberia dizer até que ponto minha mente me enganava outra vez.
***
Deixei as malas prontas para seguir viagem após um cochilo na parte da tarde. Aquela fuga não foi tão apaziguadora quanto desejava, mas ao menos vermelho, queimado e com as costas ardendo pelo sol eu pareceria um pouco mais comum quando chegasse em casa.
Era tempo de voltar. A velha vida ainda era mesma, os velhos hábitos aguardavam, os sorrisos falsos me esperavam ansiosos. Era hora de voltar à realidade, embora eu não soubesse mais ao certo o que isso significava.
