Os ouvidos de Berenice

Nunca entendi muito bem os motivos, mas o fato é que a velha Berenice jamais confiou em mim. E isso sem jamais ter feito questão de me ver pessoalmente.

Estava no começo da faculdade quando Bruna e eu nos conhecemos. Entrava nas primeiras semanas do segundo período. Ela, dedicada aluna do último ano do ensino médio, se preparava para o vestibular em um cursinho noturno. Nossos horários começaram a bater e, por conta disso, duas ou três vezes por semana estávamos no mesmo ônibus.

No começo eu só olhava. A condução lotada e o fato dela subir vários pontos depois de mim – ou seja: eu conseguia lugar para sentar enquanto ela vinha exprimida entre outros estudantes, senhoras invariavelmente gordas, trabalhadores suados e velhinhos tarados que faziam questão de ficar de pé – não facilitava qualquer tipo de aproximação. Mas um dia dei a sorte de vê-la exprimida do meu lado. É óbvio que não cedi o lugar (que espécie de homem cederia o lugar em um ônibus pra lá de cheio para alguém com quem nunca falou por mero “cavalheirismo”?! Não os que vinham no mesmo ônibus que eu.), mas me ofereci para segurar seus cadernos. E foi o suficiente. Em pouco tempo, já sabia seu nome, sabia os dias em que possivelmente a encontraria, sabia o curso que pretendia fazer e, até mesmo, que melancia era o seu sabor favorito de bala. Em pouco tempo, passei até a ceder o meu lugar para ela – só de vez em quando, é claro. E daí pra lá, foi um passo até começarmos a sair.

Os encontros eram, de início, restritos aos finais de semana, e sempre já marcados no local – um bar, um cinema, uma danceteria qualquer. Aí vim a descobrir que não morávamos tão longe um do outro, de modo que, nos dias de semana mais descansados, passei a acompanha-la até em casa. Nunca fiz questão de entrar. Estava sempre cansado, despenteado e louco de vontade de ficar descalço, mas Bruna e seu longo cabelo castanho claro, Bruna e seu sorriso reto o suficiente para quase nunca mostrar os dentes, Bruna e os seus olhos tristes, as vezes verde, as vezes azuis, valia o esforço.

Quem não gostava muito disso era a velha Berenice, avó da Vestibulanda da Condução. Bastava nos ouvir conversando na calçada para gritar coisas como “Bruna, entra logo e vem jantar!”, “Bruna, sai do sereno! Olha a virose!”, ou simplesmente “Bruna, vamos largar de putaria aí fora e entrar logo de uma vez?!”.
Depois de algumas semanas, vim a saber: a velha não gostava mesmo era da minha voz – digna de um “canastrão de filme mexicano”, teria definido. E assim, em nenhum momento durante os longos três meses em que saímos, fui convidado a entrar. Sequer cheguei a ser apresentado à velha, que também só vi por fotografias.

Devem ter se passado uns cinco anos. Talvez um pouco mais. Concluí a faculdade, passei em um concurso público, consegui um carro bom, algum dinheiro, algum sossego e, há pouco tempo, uma boa namorada. Cristina pode não ser a mulher mais linda do mundo, mas vale muito pelo conjunto da obra: discute tanto política externa quanto TV Fama e Esporte Espetacular; entende de cozinha internacional mas compartilha, sorrindo, de uma porção de torresmo; e, não poderia omitir, jamais se rende à tentação das lingeries com tom de pele.

Estava no apartamento de Cristina um dia desses quando o telefone tocou. Como Conjunto da Obra estava saindo do banho, não vi problema em atender. Do outro lado, uma senhora, reticente, me perguntou se era da casa da “Tininha”, temendo ter discado errado. Mal tive tempo de responder que sim. Cris, ainda molhada, entrou no quarto e atendeu ao chamado enquanto fui à cozinha beber um pouco de água.

Quando voltei, Cristina, quase às gargalhadas, me contou:

- Era a tia Bê, irmã da minha vó. Queria saber o telefone da minha mãe.
- Ah, sim… e qual a razão desse riso todo?
- Sabe o que ela falou pra mim?
- O que?
- Que, no meu lugar, teria cuidado com você.
- Como assim?!
- É! Ela disse que você tem a voz daqueles canastrões de filmes mexicanos, e que jamais confiaria em alguém com uma voz dessas.
- Como era mesmo o nome dela?
- Berenice, mas a gente só a chama de Tia Bê.

~ por Jorge Wagner em Março 31, 2009.

5 Respostas to “Os ouvidos de Berenice”

  1. Hahahahahahahaha

    bom, muito bom!

  2. Muito bom o seu blog, adorei a postagem, você escreve muito bem!

  3. Eu tenho que conhecer essa Berenice, realmente ela tem uma percepção invejavel. rs

  4. a teoria do “ouvido absoluto”, saca? rs

  5. Puxa vida muito legal ai, meus parabéns, já é segundo que leio e adoro.

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