Helen
O show acaba e eu saio da mesa para o balcão a fim de pagar a conta.
“Que merda!”
Helen está sentada num daqueles bancos altos de madeira, de costa para o balcão, do lado da entrada para a cozinha. Não tem pra onde correr. Saio da área onde estava e dou de cara com ela e, se a sorte permite que ela não me veja num primeiro instante, tenho amigos gentis o suficiente para fazer o contrário.
- Olha quem estava ali atrás!
- Oi, Arthur. Oi… Helen.
É o suficiente. Helen me olha com olhos famintos, olhos grandes e famintos, num olhar de cima a baixo. E sorri com cada um dos seus trinta e dois dentes.
Antes que eu possa chegar ao caixa, Arthur se precipita em perguntar:
- Vai embora como?
- Táxi.
- Ah, me espera aí um pouco. Eu to de carro, levo vocês. – e sai de perto, mas não sem olhar para trás por cima do ombro e sorrir um riso pequeno e cínico no canto da boca como se me dissesse “essa é por aquela vez”. E OK! Eu entendo o recado. Estava devendo. Mas… Helen? Não precisava tanto.
Ela puxa algum assunto sobre eu ter me formado, e eu respondo me fazendo de idiota enquanto lembro que ela me perguntou exatamente a mesma coisa há pouco mais de seis meses, quando nos esbarramos na fila do banco. Depois pergunta se gostei do show, pergunta onde estou trabalhando (e fala qualquer coisa sobre estar desempregada, esperando a resposta de um favor com um político gordo e babão qualquer que chegou ao poder graças à meia dúzia de acordos suspeitos e votos de pedintes como a mãe dela revela ser), fala que estou sumido, elogia minha barba. Depois fala mal do calor, fala mal da cidade, fala mal da garota sentada na mesa da frente que a teria olhado de cara feia na fila para o banheiro feminino. Ela fala, fala, fala e fala. Ela me lembra uma velha estação de rádio AM transmitindo uma partida de futebol.
Tento não me irritar me concentrando no gosto do pedaço de bacon preso entre meus dentes. E quando a estação AM enfim pergunta “lembra quando nós saíamos juntos?”, estou tão concentrando no sabor do porco que quase respondo com um ronco suíno.
- Não adianta ignorar não… – ela diz, me encarando e sorrindo.
- Ah, é… não, não estou ignorando. E eu lembro sim. – “não que sejam boas lembranças”, mas é claro que isso eu não digo.
- Sabe que eu era apaixonada por você, né?
- Sei sim…
- Faz tempo…
- Que bom…
- Ein?
- Nada não…
- Eu ouvi.
- Foi brincadeira… – mentira, foi sério. Que bom. Que bom mesmo.
- Tudo bem. Ah! Não contei que andei lendo seus textos…
Estou surpreso! Helen sabe ler?!
- Bacana! E o que achou?
- Gostei bastante de algumas coisas. Tava até falando com o Arthur um dia desses aqui. Parece que você usa algumas coisas que aconteceram mesmo, né?
- É por aí. Sempre tem alguém, alguma situação, mas nunca é exatamente o que aconteceu, entende?
- Entendo. Seria muita pretensão minha achar que um dia você pode escrever algo sobre nós?
- Talvez nem tanto.
- SÉRIO?! Você escreveria algo pra mim?
- Pode ser, Helen… pode ser, um dia, talvez.
Ela agradece, me encara com ar de gratidão e pula rápido do banco falando, espivitada, que precisa “fazer xixi”. Helen, essa estação de rádio AM escondida em um corpo magro, do cérebro pequeno e encaixotado em algum lugar por detrás dos olhos famintos e do sorriso colgate.

que legaaaaaaaaal!
escreve algo para mim também, mano? UAHSUAHSUAHS
pode ser da biba new york! ;D
haha. quanto amor!
Às vezes as pessoas so precisam de atenção, não precisa nem ser uma boa atençao… ;]
Mas ainda não estou me sentindo vingado….rsrsrsrs