Vôo e queda de uma pequena ave

Em uma cidade pequena e decadente, ninguém foi tão aplaudido durante o período de campanha em 2008 quanto ele. Pelo menos não de forma espontânea.

Pai de duas garotas que ficaram grávidas ainda na adolescência, magro, baixo, calvo e com traços que o aproximam, de alguma maneira, a uma espécie de Nicolas Cage subdesenvolvido, ele aparenta mais idade do que realmente tem. E que nunca duvidem do poder de alguns anos no alcoolismo!

Não sei seu nome. Pelo menos não o de verdade. Por aqui, todos o conhecem como Piriquito (grafado exatamente dessa forma). E por trabalhar vendendo gás de cozinha em sua moto 125 (isso durante a parte do dia, porque durante a noite ele a usa como entregador de pizzas), nada mais justo que seu “nome completo” se tornasse Piriquito do Gás.

Após permanecer sóbrio durante um bom período, Piriquito foi convidado para ser candidato ao cargo de vereador no município de Paracambi, interior do Rio de Janeiro. E humilde como apenas alguém que usa fitilho no lugar de um cinto poderia ser – seja cuidando ele próprio, sozinho, de toda panfletagem, ou pedindo votos em porta de mercados, em pontos de ônibus e onde houvesse pequenos grupos de pessoas, ou ainda usando sua moto com um sistema de som extremamente precário para fazer seus discursos de trinta segundos – tornou-se, rapidamente, uma espécie de celebridade local.

O fenômeno se repetiu comício após comício: bastava ser chamado ao palanque para que todos os presentes gritassem, aplaudissem e voltassem sua atenção de volta a quem receberia o microfone depois de tanta falação (desinteressante, na maior parte do tempo). Todos, sem distinção, o prestigiavam. E mesmo os que já haviam comprometido seus votos com algum outro candidato, não escondiam: estavam ali para ouvir seu canto.

O último de seus discursos – poucos dias antes da eleição que renovou boa parte de uma câmara dos vereadores velha, empoeirada e fedendo a mofo – foi, provavelmente, o mais marcante. Piriquito, com lágrimas nos olhos, agradeceu a todos os presentes, a todos que o apoiavam e, principalmente, a todos que acreditaram que aquele homem “que antes vivia caído nas valas e calçadas” poderia crescer, poderia ser alguém, poderia – para não perder a metáfora – alçar vôo. Ele segurava o choro, seus aliados políticos sorriam (e muitos desses sorrisos eram realmente sinceros) e o público aplaudia como fiéis em uma igreja aplaudem após ouvir o testemunho incrível de um novo convertido.

Pouco após as sete da noite do dia 5 de outubro, a surpresa: em um município com pouco mais de trinta mil eleitores, onde um vereador consegue, dependendo da legenda, se eleger com pouco mais de 500 votos, o pássaro mais humilde da região, o candidato que não contratou uma só panfletista, que não compôs jingle e que não contou com um único cabo eleitoral havia batido o impressionante total – dentro das proporções da cidade – de 329 votos. Se por protesto contra as múmias da câmara ou por apoio real ao candidato, Piriquito teve mais votos que alguns vereadores que tentavam a reeleição, mais que ex-vereadores que tentavam reaver o osso, mais do que um empresário falido e prepotente que, em plena meia idade, sentia-se garotão e acreditava que mijar dinheiro bastaria para comprar a inteligência de um número de pessoas suficiente para se eleger (ou para, pelo menos, ter mais que 287 votos).

Alheio ao fato de que seu partido – não coligado com nenhum outro e sem contar com um único candidato de votação expressiva – jamais elegeria alguém, Piriquito sonhou. Acreditou em dias melhores, em vôos mais altos. Acreditou que não estava longe o tempo em que não precisaria mais passar seus dias sobre sua moto, ora vendendo gás, ora entregando pizza. E mesmo não tendo chegado lá, viveu por mais de um mês sobre a sombra do fazer bonito. Quase um herói. Quase.

Mas a vida não é feita de sonhos, não é feita de quases. Não existem heróis e fãs não pagam contas, não resolvem problemas, não sanam doenças ou vícios.

Final de novembro. Uma moto mal parada na frente de um bar. Na parte de trás, dois botijões de gás. No bar, sentando torto sobre uma cadeira, segurando a cabeça com uma das mãos parecendo ter medo de que o pescoço não agüente o seu peso, uma ave. Uma ave bêbada e triste.

~ por Jorge Wagner em novembro 25, 2008.

3 Respostas to “Vôo e queda de uma pequena ave”

  1. como sempre seu senso de politica altamente afinado!
    caralho cara, realmente, eu, como muitos, tinha o voto comprometido
    depois de ler isso, acho q vi um poko da injustiça q eh “fazer politica nesse país, mas como dizem sobre as águias, “demora um bom periodo na borda do ninho, ate seu primeiro voo solo…”
    se a águia, uma ave magestosa e forte, demora a voar, pq naum dar mais uma chance a um periquito?
    ^.^

    Vlw lek

  2. Muito o bom o texto!!!

    Em meio a tantas falcatruas podemos presenciar por um momento a praça do miro caindo em gritos e aplausos para um ave que pensava em voar e conseguiu dar seus primeiro vôos em uma cidade onde tudo parece meio esquecido!!!

    parabéns pelo texto…

    Estou sempre por aqui, acompanhando seus textos!!!

    Abraços

  3. Sou de MG e o ‘Piriquito do Gás’ é meu tio, rs… fiquei impressionada ao ler um texto sobre ele! Um abraço!

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