Sobre mulheres em fúria

•Julho 6, 2009 • Deixe um comentário

Há muitas formas cruéis de se vingar de um homem. Você pode colocar manteiga dentro do sapato que ele usa para ir para o trabalho ou então laxante no café da manhã. Pode jogar as roupas pela janela fazendo um escândalo cinematográfico. Ou então mudar todas as fechaduras da casa e ir passar um final de semana na casa de parentes… em outro cidade ou estado, ou quem sabe no exterior. Você pode sair com alguém que ele considere como um de seus melhores amigos. E pode até divulgar na internet aquelas fotos dele seminu – branco como um copo cheio de leite de cabra, magro como um grilo anêmico, careca feito casca de ovo e brocha feito macarrão cozido.

De todas as maneiras, porém, ela soube escolher a mais cruel: Ana quebrou meu LP do Al Stewart.

Nova SET, etc.

•Junho 1, 2009 • Deixe um comentário

Sou um sujeito meio nulo com cinema. Quer dizer… gosto de filmes, é claro, mas paro poucas vezes diante da telona. E gosto de comédias românticas bobinhas e de absurdos sanguinolentos com a inversa proporção do meu interesse por filmes cults do cinema europeu (com raras exceções). Ah, e tem Bollywood, também… que acho uma merda (e nesse ponto peço desculpas à minha ex cunhada e ao namorado paquistanês dela, mas realmente não rola).
Mas gosto de ler. Sempre gostei. Num trem lotado, por exemplo (como os que encarei diariamente quando estava na faculdade), filava desde as revistas de fofoca das tiazonas de Engenheiro Pedreira às revistas de economia de algum fulano de terno. Comemoro lançamento de todo quanto é tipo de título e lamento quando descubro que algum deles está capengando.

E é por isso que, feito o mea culpa, posto abaixo o email que recebi do Ricardo Schott, que está fazendo a divulgação da nova revista SET:

Não, a revista SET não acabou. De jeito nenhum. Sem chances. Não, não. Uma revista de cinema como a SET, que, em vez de leitores, tem fãs, não vai jamais morrer. No próximo dia 5 chega às bancas de todo o Brasil a NOVA SET, melhor, mais bonita e mais integrada com o mercado nacional. A revista, que traz um especial sobre “O exterminador do futuro – A salvação”, está sendo editada agora por uma equipe carioca formada por Mario Marques (publisher) e Carlos Helí de Almeida, Marco Antonio Barbosa, Nelson Gobbi e Robert Halfoun (editores). A SET é reforçada com três novos colunistas: Luiz Noronha (Ex-editor do Segundo Caderno do Globo, sócio da Conspiração Filmes), Pedro Butcher (crítico da Folha de São Paulo e editor do site Filme B) e Marcelo Cajueiro (correspondente no Brasil da revista “Variety”).

set-exterminador1
***

Não é novidade pra ninguém que esse blog capengou. Não tenho mais tesão em postar coisas diariamente (ou quase) como fazia nos tempos do Canção Pobre. E não sou só eu. Blogs zilhões de vezes mais interessantes vem encerrando suas atividades (caso do Enloucrescendo, recentemente), seja por desinteresse do blogueiro ou por esse achar que algumas twittadas valem mais do que um post longo.

Mas pode deixar que de vez em quando eu apareço. =]

a justiça um dia vem.

•Maio 17, 2009 • 2 Comentários

Lembra daquele texto sobre o calote que levei? Pois então…
Nele eu dizia que o indivíduo ainda ia encontrar alguém que não aceitasse ser feito de bobo, e foi o que aconteceu.

Revista VITRINE pronta, o suposto empresário não pagou à jornalista Karen Cruz e ao designer Leonardo. E como resultado, foi denunciado ao MP na última quinta-feira.
Inteligente e esperto como só ele, o Bom Cristão não havia registrado o nome, o logo ou nada referente à publicação. Pois a jornalista e o designer foram ao INPI e o fizeram, tirando a revista de um dono que, na verdade, nunca chegou a ser dono!

Então é isso: a região da Costa Verde agora tem a Revista VITRINE, com redação em Mangaratiba (não mais em Itaguaí), nas mãos de pessoas dignas e que não aceitaram passivamente um golpe de alguém que se julgava esperto.

E só pra constar: a sensação de ser “chutado” é boa, neném?!

mundinhos #2

•Abril 7, 2009 • 3 Comentários

No incício da primeira semana de aula, a garota conta, empolgada, para as amigas: “Nooooossa! Eu to louca pra dar uns pegas num carinha lá da faculdade! Ele é lindo, gostoso, super fashion! Os óculos escuros dele são do mesmo modelo que os meus!”. E na segunda-feira da semana seguinte, com ar desolado: “Droga! Descobri que o carinha da faculdade é gay!”.

Os ouvidos de Berenice

•Março 31, 2009 • 4 Comentários

Nunca entendi muito bem os motivos, mas o fato é que a velha Berenice jamais confiou em mim. E isso sem jamais ter feito questão de me ver pessoalmente.

Estava no começo da faculdade quando Bruna e eu nos conhecemos. Entrava nas primeiras semanas do segundo período. Ela, dedicada aluna do último ano do ensino médio, se preparava para o vestibular em um cursinho noturno. Nossos horários começaram a bater e, por conta disso, duas ou três vezes por semana estávamos no mesmo ônibus.

No começo eu só olhava. A condução lotada e o fato dela subir vários pontos depois de mim – ou seja: eu conseguia lugar para sentar enquanto ela vinha exprimida entre outros estudantes, senhoras invariavelmente gordas, trabalhadores suados e velhinhos tarados que faziam questão de ficar de pé – não facilitava qualquer tipo de aproximação. Mas um dia dei a sorte de vê-la exprimida do meu lado. É óbvio que não cedi o lugar (que espécie de homem cederia o lugar em um ônibus pra lá de cheio para alguém com quem nunca falou por mero “cavalheirismo”?! Não os que vinham no mesmo ônibus que eu.), mas me ofereci para segurar seus cadernos. E foi o suficiente. Em pouco tempo, já sabia seu nome, sabia os dias em que possivelmente a encontraria, sabia o curso que pretendia fazer e, até mesmo, que melancia era o seu sabor favorito de bala. Em pouco tempo, passei até a ceder o meu lugar para ela – só de vez em quando, é claro. E daí pra lá, foi um passo até começarmos a sair.

Os encontros eram, de início, restritos aos finais de semana, e sempre já marcados no local – um bar, um cinema, uma danceteria qualquer. Aí vim a descobrir que não morávamos tão longe um do outro, de modo que, nos dias de semana mais descansados, passei a acompanha-la até em casa. Nunca fiz questão de entrar. Estava sempre cansado, despenteado e louco de vontade de ficar descalço, mas Bruna e seu longo cabelo castanho claro, Bruna e seu sorriso reto o suficiente para quase nunca mostrar os dentes, Bruna e os seus olhos tristes, as vezes verde, as vezes azuis, valia o esforço.

Quem não gostava muito disso era a velha Berenice, avó da Vestibulanda da Condução. Bastava nos ouvir conversando na calçada para gritar coisas como “Bruna, entra logo e vem jantar!”, “Bruna, sai do sereno! Olha a virose!”, ou simplesmente “Bruna, vamos largar de putaria aí fora e entrar logo de uma vez?!”.
Depois de algumas semanas, vim a saber: a velha não gostava mesmo era da minha voz – digna de um “canastrão de filme mexicano”, teria definido. E assim, em nenhum momento durante os longos três meses em que saímos, fui convidado a entrar. Sequer cheguei a ser apresentado à velha, que também só vi por fotografias.

Devem ter se passado uns cinco anos. Talvez um pouco mais. Concluí a faculdade, passei em um concurso público, consegui um carro bom, algum dinheiro, algum sossego e, há pouco tempo, uma boa namorada. Cristina pode não ser a mulher mais linda do mundo, mas vale muito pelo conjunto da obra: discute tanto política externa quanto TV Fama e Esporte Espetacular; entende de cozinha internacional mas compartilha, sorrindo, de uma porção de torresmo; e, não poderia omitir, jamais se rende à tentação das lingeries com tom de pele.

Estava no apartamento de Cristina um dia desses quando o telefone tocou. Como Conjunto da Obra estava saindo do banho, não vi problema em atender. Do outro lado, uma senhora, reticente, me perguntou se era da casa da “Tininha”, temendo ter discado errado. Mal tive tempo de responder que sim. Cris, ainda molhada, entrou no quarto e atendeu ao chamado enquanto fui à cozinha beber um pouco de água.

Quando voltei, Cristina, quase às gargalhadas, me contou:

- Era a tia Bê, irmã da minha vó. Queria saber o telefone da minha mãe.
- Ah, sim… e qual a razão desse riso todo?
- Sabe o que ela falou pra mim?
- O que?
- Que, no meu lugar, teria cuidado com você.
- Como assim?!
- É! Ela disse que você tem a voz daqueles canastrões de filmes mexicanos, e que jamais confiaria em alguém com uma voz dessas.
- Como era mesmo o nome dela?
- Berenice, mas a gente só a chama de Tia Bê.

Helen

•Março 27, 2009 • 4 Comentários

O show acaba e eu saio da mesa para o balcão a fim de pagar a conta.

“Que merda!”

Helen está sentada num daqueles bancos altos de madeira, de costa para o balcão, do lado da entrada para a cozinha. Não tem pra onde correr. Saio da área onde estava e dou de cara com ela e, se a sorte permite que ela não me veja num primeiro instante, tenho amigos gentis o suficiente para fazer o contrário.

- Olha quem estava ali atrás!
- Oi, Arthur. Oi… Helen.

É o suficiente. Helen me olha com olhos famintos, olhos grandes e famintos, num olhar de cima a baixo. E sorri com cada um dos seus trinta e dois dentes.
Antes que eu possa chegar ao caixa, Arthur se precipita em perguntar:
- Vai embora como?
- Táxi.
- Ah, me espera aí um pouco. Eu to de carro, levo vocês. – e sai de perto, mas não sem olhar para trás por cima do ombro e sorrir um riso pequeno e cínico no canto da boca como se me dissesse “essa é por aquela vez”. E OK! Eu entendo o recado. Estava devendo. Mas… Helen? Não precisava tanto.

Ela puxa algum assunto sobre eu ter me formado, e eu respondo me fazendo de idiota enquanto lembro que ela me perguntou exatamente a mesma coisa há pouco mais de seis meses, quando nos esbarramos na fila do banco. Depois pergunta se gostei do show, pergunta onde estou trabalhando (e fala qualquer coisa sobre estar desempregada, esperando a resposta de um favor com um político gordo e babão qualquer que chegou ao poder graças à meia dúzia de acordos suspeitos e votos de pedintes como a mãe dela revela ser), fala que estou sumido, elogia minha barba. Depois fala mal do calor, fala mal da cidade, fala mal da garota sentada na mesa da frente que a teria olhado de cara feia na fila para o banheiro feminino. Ela fala, fala, fala e fala. Ela me lembra uma velha estação de rádio AM transmitindo uma partida de futebol.

Tento não me irritar me concentrando no gosto do pedaço de bacon preso entre meus dentes. E quando a estação AM enfim pergunta “lembra quando nós saíamos juntos?”, estou tão concentrando no sabor do porco que quase respondo com um ronco suíno.

- Não adianta ignorar não… – ela diz, me encarando e sorrindo.
- Ah, é… não, não estou ignorando. E eu lembro sim. – “não que sejam boas lembranças”, mas é claro que isso eu não digo.
- Sabe que eu era apaixonada por você, né?
- Sei sim…
- Faz tempo…
- Que bom…
- Ein?
- Nada não…
- Eu ouvi.
- Foi brincadeira… – mentira, foi sério. Que bom. Que bom mesmo.
- Tudo bem. Ah! Não contei que andei lendo seus textos…

Estou surpreso! Helen sabe ler?!

- Bacana! E o que achou?
- Gostei bastante de algumas coisas. Tava até falando com o Arthur um dia desses aqui. Parece que você usa algumas coisas que aconteceram mesmo, né?
- É por aí. Sempre tem alguém, alguma situação, mas nunca é exatamente o que aconteceu, entende?
- Entendo. Seria muita pretensão minha achar que um dia você pode escrever algo sobre nós?
- Talvez nem tanto.
- SÉRIO?! Você escreveria algo pra mim?
- Pode ser, Helen… pode ser, um dia, talvez.

Ela agradece, me encara com ar de gratidão e pula rápido do banco falando, espivitada, que precisa “fazer xixi”. Helen, essa estação de rádio AM escondida em um corpo magro, do cérebro pequeno e encaixotado em algum lugar por detrás dos olhos famintos e do sorriso colgate.

Insone

•Março 26, 2009 • 1 Comentário

Dezessete graus, ou algo por aí. Parece que teremos um bom inverno esse ano.

Minha barba cresce na mesma velocidade dos carros que avançam sinais, guiados por motoristas bêbados às três e quinze da manhã. Ou das sirenes que gritam as quatro, correndo contra o tempo para salvá-los da morte.

Na tevê quase sem som, vídeos velhos, jornais sem tesão, religiosos sem conhecimento, programas de televendas. (Fico com os vídeos velhos: um especial sobre Iggy Pop, ao que parece. Mas não estou interessado, não sou feliz, não estou sóbrio, não tenho atenção, não me encho de sono. Só preciso ouvir as vozes baixas, o som de algumas risadas. Só preciso ter a impressão de que, ao menos hoje, há algum movimento por aqui).

Estou deitado no sofá da sala ao lado de um carrinho vazio de bebê.

Você já tomou um calote? Eu já.

•Março 20, 2009 • 14 Comentários

Ser feito de trouxa. Ser passado para trás. Tomar uma volta. Há muitos eufemismos para o popular “tomar um calote”. Eu sou um entre muitos que já dançaram com isso. E apenas por desencargo de consciência (uma palavra em falta no vocabulário de muitas pessoas hoje em dia), resolvo compartilhar isso com vocês, meus poucos leitores, meus muitos amigos.

Imagine a cena:
Você está desempregado. Você tem alguns projetos que começarão apenas no segundo semestre, mas está em janeiro e desempregado. Então você entrega alguns currículos ao acaso e uma pessoa entra em contato com a seguinte conversa: “Sou fulano, sou editor de uma revista em Itaguaí. Estou começando um novo projeto e gostaria que você participasse dele.”

O novo projeto: uma revista voltada para comércio, turismo e economia na região da Costa Verde (municípios como Mangaratiba, Angra, Itaguaí etc).
O nome do novo projeto: Revista Vitrine (muito original, por sinal! deve existir pelo menos mais umas cinco sobre os mais diferentes assuntos com o mesmo nome por aí).
O fulano: um suposto empresário chamado Jamil Barreto.

Pois eu aceitei a proposta. Passei a ir uma média de duas vezes na semana para o local, onde rodava o comércio ao lado do “empresário”.
O acertado era escrever algumas matérias e receber por cada uma delas, individual, sem vínculo empregatício. E foi o que fiz entre os meses de janeiro e março.
Era preciso ter paciência, afinal, Jamil falava, falava, falava… e muito pouco era colocado em prática. Claro que eu temia que o barco afundasse, mas já havia investido um dinheiro no projeto, gastando com passagem e lanche. Tão logo a primeira edição saisse, eu pegaria a minha parte e sairia também.

Como o dinheiro para a passagem acabou e nada da revista sair, comecei a cobrar um adiantamento. Não havia mais como ir ao local – a não ser que eu fosse a pé.

O resultado: Fui dispensado. Minhas matérias foram abortadas e, assim, o suposto empresário se vê no direito de não pagar um único centavo. E para não parecer que estou defendendo apenas o meu lado, posto abaixo a amigável conversa que se deu através de email com o respeitoso, honesto e cristão senhor Jamil Barreto, de Itaguaí.

Achou pequeno? Clique aqui e veja a imagem com maior definição.

Sobre sapatos & casamentos

•Março 17, 2009 • 3 Comentários

Olhe para mim. Eu uso sapatos. SA-PA-TOS. E não qualquer sapato. São sapatos pretos do tamanho exato, rigorosamente engraxados, tanto que, juram os que zombam de mim, na falta de um espelho, poderia usa-los como step.

Meu nome é Pedro. Muito prazer – ou não. Tenho 28 anos, trabalho como contador, sou casado e pai de um garoto que faz três anos daqui alguns meses. E… bem, isso pode não ser tudo, mas é o que há de mais interessante sobre mim que você precisa saber.

Voltemos aos sapatos…
De uma maneira geral, não reclamo. Até gosto. Talvez tenha acostumado, talvez ache bonito. E convenhamos que combinam com a roupa exigida pelo trabalho na empresa. Não dá pra me imaginar – pelo menos eu não consigo – chegando naquele apático escritório usando terno e tênis All Star.

Tênis All Star…

Há vezes em que penso que um casamento é parecido com um par de sapatos. Bem parecido, aliás, devo dizer…

Matrimônio tem lá o momento em que parece confortável, assim como uma boa marca de calçados (e convenhamos: se você tem dinheiro, vai preferir um BOM sapato, mesmo que esse lhe saia por um preço mais elevado; e, com certeza, conseguir uma boa esposa vai ser MUITO mais fácil se você tiver dinheiro). Isso é bom, mas não é tudo, não acontece o tempo todo.

Há quem olhe um sapato bem engraxado e pense que aquele ali é o melhor calçado do mundo, quando pode acontecer de ser pura maquiagem. Aquele exterior reluzente, brilhando, nem sempre corresponde à condição do interior do sapato, muitas vezes gasto, incomodo. Conheço casais que vivem assim, embora não admitam. Meus vizinhos de porta se xingam de todos os nomes possíveis pelo menos três vezes na semana. É um festival de “vadia”, “desgraçado” e congêneres – apenas para ficar nos menos ofensivos. E sempre há quem ameace ir embora (“para a casa da mamãe”, “pra casa do Osmar” etc). Mas isso tudo, só dentro de casa. Quando os encontro no corredor, tenho que fingir que nunca ouvi uma só briga enquanto eles se abraçam, sorriem, trocam olhares enquanto percebem que há alguém olhando – como aquelas lâmpadas com sensor de movimento: basta notar a presença de testemunha e a felicidade conjugal se acende automaticamente.

Claro, existem também os apertados. Apertaaaaados. Machucam o calcanhar, machucam os dedos, incham os pés, chegam a cortar a pele. Sufocantes, é a palavra. Um sapato apertado pode causar falta de ar e dor de cabeça. E agora me diga: quem nunca ouviu as palavras “sufoco” e “dor de cabeça” para definir um casamento?
***

Um dia desses esteve no escritório uma garota. A pequena escondida por detrás de grandes óculos escuros devia ter pouco mais de 1,60, tinha sardas, era ruiva – dona de fios de um vermelho quase mogno cortados à altura dos ombros, desfiados nas pontas. Suas roupas revelavam uma silhueta invejável, apesar da saia preta pouco abaixo do joelho não marcar tanto suas formas como a justa camiseta branca. E, claro, calçava tênis All Star.
Enquanto Vitor a atendia, eu, de minha mesa, a olhava de cima abaixo (o que não era um trajeto muito longo, é verdade), tentando adivinhar de onde a conhecia. Podia jurar conhece-la de algum lugar, embora não soubesse precisar exatamente de onde.
Talvez percebendo minha pesquisa, Cabelos de Mogno levantou os óculos e me encarou por alguns instantes. Depois apontou discretamente para mim enquanto pareceu perguntar algo para o colega que a atendia. Vitor olhou em minha direção, voltou-se novamente para ela e pareceu responder algo afirmativamente. Cabelos de Mogno olhou para mim e sorriu – um sorriso que parecia lhe tomar toda a metade inferior do rosto, um sorriso de caricatura, um sorriso grande e branco.

Lembrei.

Aproveitei meu horário de almoço a comprovei enquanto conversávamos: Cabelos de Mogno havia sido namorada de um ex-amigo há mais ou menos cinco anos. É possível que tenhamos nos visto apenas umas três vezes nessa época – período insuficiente para me fazer esquecer alguns de seus traços. Para minha surpresa, ela também se lembrava de mim. (Ou mais ou menos. Depois vim a descobrir que a pergunta que Cabelos de Mogno fez ao Vitor não foi nada mais que “Aquele cara ali é um que tinha – ou tem – um Gol quadrado bem ruizinho?”. Eu já não tenho. Agora ando a pé. Mas tinha, e a resposta afirmativa disparou o gatilho para que ela soubesse quem eu era).

Trocamos telefones e combinamos de nos falarmos numa próxima oportunidade.

E veja só… eu, tão convicto, desejei, por mais que alguns instantes, me ver livre dos meus sapatos.
***

Olhe para mim. Eu uso sapatos! E eles podem até não ser das melhores marcas, podem não ser dos mais confortáveis, mas são bonitos bem lustrados e, como eu disse antes, até que gosto deles.
Então acho que é mais ou menos por aí: por mais que você goste dos seus sapatos, e por mais que eles calcem bem, não conheço uma só pessoa – UMA SÓ PESSOA – que não deseje, de vez em quando, calçar um par de tênis, um chinelo de dedo, uma pantufa…

“de Turim à Acapulco”

•Março 14, 2009 • 3 Comentários

Um erro comum às pessoas é acreditar que em todo término de relacionamento caiba àquele que tomou a atitude de decretar o fim o papel de vilão/vilã, e a quem relutou, o papel de pobre coitado/a. Talvez seja uma herança rodrigueana da ideia de que em um matrimônio há sempre um infiel e um traído, talvez não. A verdade é que, para quem está de fora, é sempre a mesma coisa: acabou? Ele/ela está sofrendo e a culpa é dela/dele. Ele foi insensível, ela foi infiel, ele era estúpido, ela era ciumenta, etc, etc, etc.

Ledo engano, meus amigos…

Não que não existam vilões. Eles existem, e aos montes – o que não significa, necessariamente, que seus relacionamentos acabarão por conta de suas vilanias. Se nem todos são maus (e eu divirjo quanto a isso), TODOS são aliciados pela maldade, e muitos caem. Em todos os aspectos, em todos os sentidos, é muito mais fácil desagradar, é muito mais fácil tropeçar. Mas é preguiça demais acreditar que em uma relação que envolve (pelo menos) duas pessoas – ambas sujeitas à mesma quantidade de erros e acertos, ainda que haja quem erre ou acerte mais, ou pelo menos quem assim julgue – exista apenas um que possa ser responsabilizado pelo fim.

Essa generalização estúpida vem, normalmente, de pessoas que são mais próximas a apenas uma das partes. São pessoas que não ouviram os dois lados, são pessoas que não se dispuseram a entender as razões do ser malvado que chegou ao ponto final. São pessoas que, dotadas de um repentino senso de justiça, esquecem suas próprias falhas – muitas vezes bem recentes – para encontrar as supostas falhas no indivíduo que, passam a bradar, não teve coração.

Essas pessoas ignoram que, para chegar ao ponto de se tomar uma atitude como encerrar um relacionamento de anos, por exemplo, o “lado mal” pode ter perdido noites de sono pesando seus medos, reavaliando sentimentos, encarando fotografias e buscando dentro de si e dentro de cada pequeno detalhe algo que pudesse convence-lo a deixar as coisas como estavam e seguir, ainda que infeliz. E que tipo de sentimento é esse que faria alguém, em prol de sua felicidade, querer manter ao seu lado alguém que, por uma sucessão de pequenos acasos acumulados, apesar da quase certa plena consciência da quantidade de bons momentos vividos e de coisas aprendidas, já não se sente mais como parte de um casal, como alguém disposto a sonhar pra si os sonhos que pertencem à outra parte? Egoísmo, talvez. Amor, não.
Mas isso, quem generaliza, não está nem um pouco interessado em entender.

Para o bem e para o mal, “não se pode fechar os olhos / não se pode olhar pra trás / sem se aprender alguma coisa pro futuro”. Todos são herois. Todos são vilões. Ambas as partes foram responsáveis por tudo o que houve de bom. Ambas as partes escreveram o final – não importa qual delas o tenha decretado.

Quando for você a passar pela sempre triste experiência fim, não dê ouvido às generalizações. Não enxergue o outro como alguém insensível, alguém que pensou somente em si. Nem sempre é assim. Guarde os bons momentos, as boas histórias, a sensação dos bons sorrisos.

“As lembranças são escolhas”, alguém já cantou. Na dúvida, escolha as boas.