Olhe para mim. Eu uso sapatos. SA-PA-TOS. E não qualquer sapato. São sapatos pretos do tamanho exato, rigorosamente engraxados, tanto que, juram os que zombam de mim, na falta de um espelho, poderia usa-los como step.
Meu nome é Pedro. Muito prazer – ou não. Tenho 28 anos, trabalho como contador, sou casado e pai de um garoto que faz três anos daqui alguns meses. E… bem, isso pode não ser tudo, mas é o que há de mais interessante sobre mim que você precisa saber.
Voltemos aos sapatos…
De uma maneira geral, não reclamo. Até gosto. Talvez tenha acostumado, talvez ache bonito. E convenhamos que combinam com a roupa exigida pelo trabalho na empresa. Não dá pra me imaginar – pelo menos eu não consigo – chegando naquele apático escritório usando terno e tênis All Star.
Tênis All Star…
Há vezes em que penso que um casamento é parecido com um par de sapatos. Bem parecido, aliás, devo dizer…
Matrimônio tem lá o momento em que parece confortável, assim como uma boa marca de calçados (e convenhamos: se você tem dinheiro, vai preferir um BOM sapato, mesmo que esse lhe saia por um preço mais elevado; e, com certeza, conseguir uma boa esposa vai ser MUITO mais fácil se você tiver dinheiro). Isso é bom, mas não é tudo, não acontece o tempo todo.
Há quem olhe um sapato bem engraxado e pense que aquele ali é o melhor calçado do mundo, quando pode acontecer de ser pura maquiagem. Aquele exterior reluzente, brilhando, nem sempre corresponde à condição do interior do sapato, muitas vezes gasto, incomodo. Conheço casais que vivem assim, embora não admitam. Meus vizinhos de porta se xingam de todos os nomes possíveis pelo menos três vezes na semana. É um festival de “vadia”, “desgraçado” e congêneres – apenas para ficar nos menos ofensivos. E sempre há quem ameace ir embora (“para a casa da mamãe”, “pra casa do Osmar” etc). Mas isso tudo, só dentro de casa. Quando os encontro no corredor, tenho que fingir que nunca ouvi uma só briga enquanto eles se abraçam, sorriem, trocam olhares enquanto percebem que há alguém olhando – como aquelas lâmpadas com sensor de movimento: basta notar a presença de testemunha e a felicidade conjugal se acende automaticamente.
Claro, existem também os apertados. Apertaaaaados. Machucam o calcanhar, machucam os dedos, incham os pés, chegam a cortar a pele. Sufocantes, é a palavra. Um sapato apertado pode causar falta de ar e dor de cabeça. E agora me diga: quem nunca ouviu as palavras “sufoco” e “dor de cabeça” para definir um casamento?
***
Um dia desses esteve no escritório uma garota. A pequena escondida por detrás de grandes óculos escuros devia ter pouco mais de 1,60, tinha sardas, era ruiva – dona de fios de um vermelho quase mogno cortados à altura dos ombros, desfiados nas pontas. Suas roupas revelavam uma silhueta invejável, apesar da saia preta pouco abaixo do joelho não marcar tanto suas formas como a justa camiseta branca. E, claro, calçava tênis All Star.
Enquanto Vitor a atendia, eu, de minha mesa, a olhava de cima abaixo (o que não era um trajeto muito longo, é verdade), tentando adivinhar de onde a conhecia. Podia jurar conhece-la de algum lugar, embora não soubesse precisar exatamente de onde.
Talvez percebendo minha pesquisa, Cabelos de Mogno levantou os óculos e me encarou por alguns instantes. Depois apontou discretamente para mim enquanto pareceu perguntar algo para o colega que a atendia. Vitor olhou em minha direção, voltou-se novamente para ela e pareceu responder algo afirmativamente. Cabelos de Mogno olhou para mim e sorriu – um sorriso que parecia lhe tomar toda a metade inferior do rosto, um sorriso de caricatura, um sorriso grande e branco.
Lembrei.
Aproveitei meu horário de almoço a comprovei enquanto conversávamos: Cabelos de Mogno havia sido namorada de um ex-amigo há mais ou menos cinco anos. É possível que tenhamos nos visto apenas umas três vezes nessa época – período insuficiente para me fazer esquecer alguns de seus traços. Para minha surpresa, ela também se lembrava de mim. (Ou mais ou menos. Depois vim a descobrir que a pergunta que Cabelos de Mogno fez ao Vitor não foi nada mais que “Aquele cara ali é um que tinha – ou tem – um Gol quadrado bem ruizinho?”. Eu já não tenho. Agora ando a pé. Mas tinha, e a resposta afirmativa disparou o gatilho para que ela soubesse quem eu era).
Trocamos telefones e combinamos de nos falarmos numa próxima oportunidade.
E veja só… eu, tão convicto, desejei, por mais que alguns instantes, me ver livre dos meus sapatos.
***
Olhe para mim. Eu uso sapatos! E eles podem até não ser das melhores marcas, podem não ser dos mais confortáveis, mas são bonitos bem lustrados e, como eu disse antes, até que gosto deles.
Então acho que é mais ou menos por aí: por mais que você goste dos seus sapatos, e por mais que eles calcem bem, não conheço uma só pessoa – UMA SÓ PESSOA – que não deseje, de vez em quando, calçar um par de tênis, um chinelo de dedo, uma pantufa…